Trechinho d'O Capote, do pai da literatura russa (segundo o mais fodástico deles, Dostoiévski: 'Todos nós viemos de O Capote'):
Mas Akáki Akákievicth não respondia uma palavra, como se não houvesse ninguém diante dele; em meio a todas essas amolações, não cometia um só erro no seu trabalho. Só mesmo quando a brincadeira ia além do insuportável, quando alguém lhe empurrava o braço perturbando-lhe o trabalho, é que ele falava: 'Deixem-me em paz. Por que me ofendem?' E algo estranho fazia-se ouvir em suas palavras, em sua voz. E ouvia-se algo que predispunha tanto para a compaixão que um jovem, novato no serviço, que a exemplo dos colegas ia-se permitir zombar dele, deteve-se de repente como que comovido e desde então tudo lhe pareceu mudar, assumir um novo aspecto. Algo como uma força sobrenatural o afastava dos colegas que há pouco conhecera e tomara por pessoas decentes e civilizadas; Depois, vinha-lhe à imaginação nos momentos mais alegres a imagem daquele funcionário baixinho, de fronte calva, com suas palavras penetrantes: 'Deixem-me em paz. Por que me ofendem?' Nestas palavras penetrantes, outras palavras ecoavam: 'Eu sou teu irmão'. O pobre rapaz levava as mãos ao rosto. E mais tarde, muitas vezes em sua vida ele estremeceria ao perceber o quanto há de desumano no ser humano, quanta grosseria feroz existe às escondidas num ambiente culto, requintado e, meu Deus!, até naquelas pessoas que a sociedade reconhece como nobres e honradas.
