sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Bobinhos

Não é o único deste tipo, mas vi o vídeo abaixo no facebook tempos atrás. O que me impressiona é como as pessoas ficam comovidas e aceitam plenamente a motivação do "experimento": mostrar que pessoas que têm mais são egoístas, pessoas que têm menos são solidárias. Eis o vídeo:



Já havia dito que, primeiramente, eu jamais daria minha comida pra um guri todo tatuado, com roupas caras, cheio de acessórios e folgado, que sequer pede licença e já vai dizendo que está com fome e quer um pouco da tua comida. É óbvio que qualquer um percebe que ele poderia comprar a própria comida. 
Em segundo lugar, qual o mérito do mendigo? Ele passa o dia todo fazendo coisa nenhuma, algum desconhecido bobo dá uma pizza inteira pra ele e assim a coisa vai. Aí o mesmo guri folgado pede e ganha a comida daquele que, teoricamente, deveria dividir menos, já que ele mesmo não tem nada. Minha opinião? É muito mais fácil dar aquilo que não te custou nada do que dar algo pelo qual tu trabalhou; é muito mais fácil dar algo que é fácil conseguir (pessoas sempre dão comida) que algo difícil de repor. Gostaria de ver outro vídeo com o mesmo mendigo, mas que alguém pedisse o carrinho de supermercado dele. Aí eu iria ver a solidariedade de verdade (ou não, que é o que imagino).

É fácil notar que há cada vez mais uma corrente de pensamento que mostra o ser humano como algo ruim, perigoso para os animais, para o meio ambiente, perigoso inclusive para outros humanos (estes, seriam quase anjos: solidários, compreensivos, preocupados com tudo e com todos). Procure no facebook vídeos mostrando pessoas fazendo coisas boas e grandiosas e compare com o número de vídeos mostrando gente fazendo coisas ruins. Procure vídeos mostrando que animais são melhores que pessoas (e atribuindo aos animais qualidades - incoerência máxima - características dos seres humanos). Enfim, acho isso tudo muito bobo. E acho que grande parte das pessoas que divulgam tais ideias são bem diferentes da imagem que querem passar. 
Eis que o folgado tatuado do vídeo é um tal de Sam Pepper. Vive dos vídeos de mau gosto que faz para o youtube: pegadinhas idiotas, abuso de mulheres (beijando à força, passando a mão na bunda, pegando na mão das mulheres quando elas estão com os namorados, algemando ou laçando para condicionar a soltura a um beijo na boca), brincadeiras ao estilo Jack Ass. No momento, o guri bunda-mole está respondendo a acusações de assédio e violência sexual. Imagino que ele não fez nenhum vídeo sobre o assunto...

Concluindo? Há uma ingenuidade enorme no ar, fruto da falta de reflexão cada vez maior que me parece ter tomado conta especialmente da internet. Qualquer um faz circular uma ideia aparentemente bacana, que acaba virando uma verdade. As pessoas não pensam sobre a questão, não buscam informações pra confirmar a veracidade dos fatos, não procuram saber quem é o mensageiro. Mas compartilham imediatamente; só custa um clique.

Te liga, bico de luz. Na próxima vez que assistir ao vídeo e ficar emocionado, lembre que o guri com auréola de anjinho poderia estar agarrando tua irmã à força. 

Santa estupidez, Batman!

É impressionante a absoluta falta de qualidade da nossa imprensa. Vejo no portal da RBS que um brigadiano teria matado um frentista que ajudava outro brigadiano que estava ferido por conta de uma briga no posto de combustível. O PM teria confundido o frentista com o agressor e atirado. Mas a narrativa é tão absurda que a pessoa que a fez só tem duas opções: ou estava dormindo/drogada, ou é muito burra. Dizem que o PM em horário de folga teria rendido, com a ajuda do frentista, a mulher. Ao chegar a viatura, o policial que estava trabalhando teria confundido o frentista como agressor(?) e atirado. O que acontece? Nossa população, que merece os vagabundos que tem, senta o sarrafo nos policiais. Despreparado é elogio. Já lembram do engenheiro que morreu há pouco. Mais uma prova do total despreparo (e desequilíbrio mental, logicamente).
Aí, como parto do princípio que a maioria dos policiais não é psicopata, resolvo ver no Correio do Povo a mesma notícia. Tudo muda, desde os detalhes da briga entre um casal e o brigadiano de folga, até o desfecho. Descubro que o frentista, aparentemente, ajudava o policial ferido. Juntou a arma e resolveu perseguir o casal. Quando a viatura chegou, depararam com um indivíduo armado entrando na área do posto, rendendo uma mulher. Era o frentista, que recebeu ordem para largar a arma. Não largou (talvez por nervosismo), levou um tiro na cabeça.
Será que o Clic vai republicar a matéria pedindo desculpas pelo erro grosseiro? Claro que não. O estrago na imagem da Brigada, mais uma vez, já estará feito. E assim a gente segue, caminhando para a Idade da Pedra.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Berço esplêndido

O Brasil é um país muito doente. Engraçado que desde sempre eu vejo isso, mas parece que pouca gente se dá conta. Ou a maioria sabe, mas prefere fingir não saber.

Essa semana tivemos duas notícias envolvendo taxistas em Porto Alegre. Numa delas, um bando de taxistas enfurecidos tentava invadir um estacionamento após um funcionário do local solicitar a retirada de um táxi que obstruía a entrada. Barras de ferro, agressões e vandalismo. Light, perto da outra. Três taxistas teriam matado a tiros outro motorista. Possivelmente por discussão de trânsito. Sinceramente, duvido que tenha sido isso, mas não faz diferença. Taxistas são, basicamente, funcionários públicos. Em Porto Alegre, no entanto, não passam de uma associação de criminosos. A cidade fica refém e ninguém faz nada. Em qualquer lugar minimamente civilizado, as concessões seriam cassadas e os responsáveis responderiam judicialmente. Por aqui, teremos sorte se algo acontecer aos motoristas; aos concessionários, não esperem punição alguma. Parece Taxi Driver, mas sem a loucura e motivação (muito menos o talento do De Niro) de Travis Bickle. You talkin to me?

Na zona sul da cidade, um engenheiro supostamente embriagado evitou uma abordagem da Brigada Militar na madrugada, após cruzar um sinal vermelho em alta velocidade. Fugiu e teria tentado furar uma barreira montada alguns quilômetros adiante. Num provável erro de atuação, um policial atirou e matou o motorista, sob a alegação de que ele teria sido atropelado caso não atirasse. Ok, podemos e devemos questionar a ação policial. É provável que tenham errado? É. Mas ao engenheiro, que fugia, foi dado o papel exclusivo de vítima. Em que lugar do mundo as pessoas fogem da polícia, tentam furar uma barreira policial e todo mundo acha isso normal? Deve ser pelo fato de serem incomuns as notícias onde um motorista embriagado atropela e mata várias pessoas, ou colide contra outro veículo e mata ou incapacita alguém. Por isso ninguém condena o motorista fujão...
Pra piorar, a Zero Hora coloca a machete dizendo que o engenheiro foi assassinado. Vou ao Houaiss e vejo que talvez a palavra assassinato não esteja tão mal colocada. Mas será que só eu tenho a impressão de que chamar o policial de assassino é o mesmo que dizer que ele matou porque quis? Quer dizer, é um psicopata, segundo a manchete. E burro, porque com tanta gente pra matar, tanto vagabundo dando sopa, o PM vai ter tara de matar engenheiro de família com grana. Acho que não ocorreu exatamente assim...

Todo mundo sabe que as crianças aprendem cada vez menos, que a educação está debaixo do fundo do poço, que são basicamente analfabetos. Ninguém parece dar bola. Claro, a menos que apreça alguém com câmera e microfone. Aí todos ficam indignados. Mas vá a uma escola e veja como é quando um professor ousa reprovar um aluno. Ou simplesmente chamar-lhe atenção para um mau comportamento.

A lista é quase infinita; dá pra seguir exemplificando comportamentos hipócritas, imorais, absurdos...Todo mundo vê, mas prefere fingir que nada acontece.

Deitado eternamente em berço esplêndido...

Espero que isso não tenha sido uma praga. Até agora, tem sido.