segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

I'm alive

Pois é, estou em débito. Dezembro é sempre um mês corrido, e tenho tanta coisa pra colocar em ordem que o blog saiu perdendo. Voltaremos, como diria o Anonymus. Quero falar um pouco sobre os filmes A Vida dos Outros, Lincoln e Boyhood. Quero falar sobre Orwell, sobre maconha, sobre um monte de coisas. Falarei. Por enquanto, preciso comentar esta excrescência que foi a entrevista do presidente do TSE e ministro do STF, o advogado do partido mafioso. Aliás, nem há o que comentar. A culpa é das empresas e do capitalismo. O governo é vítima. E eu e tu devemos ser palhaços, só pode.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Civilização

A série tem mais de 40 anos, mas acho que a história do mundo não costuma mudar. Material de altíssima qualidade.

Parece que eu estava certo ao dizer que não vivemos num país civilizado. Ao menos, segundo o conceito apresentado pelo historiador.

Aproveitem, a série completa está na rede, legendada em português.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Whore

Então a saudosa Bette Midler disse aquilo que eu penso e tenho dito há algum tempo. Vi que ela falou sobre a Ariana Grande (não sabia quem é a moça, aqui tu pode descobrir aqui). Dona Bette disse não saber quem estaria dizendo para a moça comportar-se como um puta, que ela deveria acreditar em seu talento e que ela não precisava daquilo. Infelizmente, dona Bette está absolutamente certa. Mais infelizmente ainda, é uma regra atual esse tipo de comportamento. A própria Jessie J, que aparece no clipe acima, é outro talento enorme usado de maneira lamentável (na maioria das vezes). O pior é que nossas filhas imitam suas artistas preferidas, é isso que elas consomem. Por isso a gente vê tanta guria recém entrada na adolescência (ou antes disso!) com fotos em redes sociais que nos deixam com vergonha alheia. É difícil falar sobre isso sem parecer um moralista, um velho chato. 
O pior é que tal comportamento tem sido justificado por um feminismo deturpado (se é que existe algum que não o seja); depois de tanto criticarem a mulher-objeto, agora elas querem mostrar a total disponibilidade da própria sexualidade e acabaram virando pouco mais que um pedaço de carne. Algumas, como a lamentável Nicki Minaj (também no clipe), realmente só têm uma bunda grande pra oferecer. Nessa confusão, a gurizada acaba tomando por talentosa gente que só tem estômago forte e respeito próprio fraco. E nivelando com alguns talentos reais, muitas vezes mal conduzidos por empresários que só querem fazer o máximo de grana possível. 
Falando nisso, lembrei da extremamente talentosa Amy Winehouse. Uma guria realmente boa, que teria décadas de uma carreira brilhante, mas que foi usada de maneira nojenta até o último de seus dias. Penso que se fosse empresário dela teria cancelado turnês até ela estar em condições mínimas. Mas eles pouco se importaram com isso, a guria subia ao palco totalmente dopada, um arremedo de ser humano. Vendeu muitos discos e dvd's depois de morta. 
Dona Bette sabe do que fala. Talvez ciente de que a menina poderia receber mal a declaração inicial, remendou para que não houvesse dúvida: aquilo havia sido um conselho de uma puta reformada.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Coisas mil

Sim, estou em débito com o blog. Só pra variar. Querendo escrever sobre alguns filmes (Lincoln, A Vida dos outros, quem sabe Invictus), sobre maconha, sobre foco e atenção....enfim, sobre um monte de coisas. Nada que disciplina e organização não resolvam.  Enquanto isso, uma tradução (longe de excelente) do poema que dá nome ao filme sobre o Mandela, do poeta vitoriano William Ernest Henley:



INVICTUS
Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

Ponerologia???

Tenho que confessar uma certa "impermeabilidade" quando vi comentários sobre o tal livro. Certamente porque anti-comunistas delirantes como o Olavo de Carvalho comentam a obra com quase exclusividade. Também é muito difícil achar qualquer crítica sobre o livro em grandes veículos internacionais. De maneira que achei que a obra teria pouca validade. Não me entendam mal: Olavo de Carvalho sem dúvida é uma pessoa inteligente e culta - extremamente culto, aliás. Mas é doido, o que prejudica muitas de suas opiniões. Não quer dizer que ele só fale bobagem, pelo contrário. Vamos aos fatos.

Descobri que o autor do livro Ponerologia - Psicopatas no Poder, é o psiquiatra polonês Andrew Lobazcewski. Explica-se por aí a preferência dos anti-comunistas - o trabalho dele é baseado em pesquisas realizadas na Polônia comunista e seus dirigentes. Não encontrei muita coisa sobre o autor, a não ser em sites que poderíamos chamar de anti-comunistas acima de qualquer outra coisa. O que parece indicar que a obra é um tanto obscura mesmo, pois alguém assim costuma gerar uma legião de críticos e de pessoas que querem destruir sua reputação. O livro saiu no Brasil pela Vide Editorial, que edita os livros do Olavo de Carvalho e tem em seu catálogo basicamente obras científicas e de alto valor cultural. Outro livro que está na minha lista, Maquiavel Pedagogo, é também editado por eles. O melhor artigo que encontrei sobre o livro está aqui Revolução sob nova perspectiva: Psicopatas no Poder.

Mas por que decidi escrever sobre um livro do qual desconfio? É que fui vendo mais e mais citações sobre o livro, e muita coisa interessante apareceu. como exemplo, o trecho que vai abaixo. Vi também um comentário muito favorável de Philip Zimbardo, autor de O Efeito Lúcifer. Também desconheço o livro, mas conheço o autor. Zimbardo foi o responsável por uma pesquisa realizada em Stanford, onde ele dividiu os alunos em grupos de guardas e prisioneiros de uma prisão fictícia. Passados meros 6 dias, foi terminado o estudo, pois foram surpreendidos pelo fato de os estudantes terem absorvido a condição de guardas e prisioneiros pra valer, tornando-se violentos e sádicos  ou passivos e deprimidos do outro. Assustados com a rápida evolução de quadros de sadismo, crueldade e depressão, a experiência foi encerrada. A experiência mostrou o que muita gente conhece na prática ou pela tevê: qualquer um pode virar um torturador. Tem muita similaridade com o estudo de Stanley Milgram, mas aí já tô fugindo demais do ponto. Depois de comprado e lido, provavelmente escreverei sobre o livro de Lobaczweski(o que deve demorar). Por enquanto, fiquem com o trecho abaixo e me digam se não vale a dica:

“Durante as épocas “boas”, a busca pela verdade torna-se desconfortável porque revela fatos inconvenientes. É melhor pensar sobre coisas mais fáceis e mais agradáveis. A eliminação inconsciente de informações que são, ou aparentam ser, não recomendáveis, torna-se gradualmente um hábito, e a seguir transforma-se em um costume aceito pela sociedade em larga escala. O problema é que qualquer processo de pensamento baseado em informações truncadas, possivelmente não gerará conclusões corretas; ele leva, além disso, a uma substituição subconsciente de premissas inconvenientes por outras mais cômodas, aproximando-se dos limites da psicopatologia. Tais períodos de satisfação para um determinado grupo de pessoas – freqüentemente com raízes em alguma injustiça para outras pessoas ou nações – passa a estrangular a capacidade de consciência individual e da sociedade; fatores subconscientes acabam assumindo um papel decisivo na vida. Tal sociedade, já infectada pelo estado de histeria,[ 21 ] considera qualquer percepção de uma verdade desconfortável como um sinal de grosseria ou falta de educação. O iceberg de J. G. Herder[ 22 ] é mergulhado em um mar de informações inconscientes falsificadas; somente a ponta do iceberg é visível sobre as ondas da vida. A catástrofe fica à espera. Em momentos como esses, a capacidade para o pensamento lógico e disciplinado, nascido durante os tempos difíceis, começa a esvanecer. Quando as comunidades perdem sua capacidade psicológica da razão e de análise moral, os processos de geração do mal são intensificados em todas as escalas sociais, sejam elas individuais ou macrossociais, até que tudo se converta em épocas “ruins”.” 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aparência não é tudo

Acho excelente a palestra da Cameron Russel, porque ela aponta problemas evidentes sem cair no discurso da militância anti-racismo. Ela não aponta para malvados culpados pela discriminação, nem para algum tipo de plano maléfico que quer escravizar novamente os negros, nem nada desse tipo. Na verdade, ela nem fala de negros especificamente, fala do óbvio condicionamento criado por questões, creio eu, muito mais mercadológicas que qualquer outra coisa. Alguém investe num determinado padrão que passa a dar dinheiro e....pronto! dali pra frente será mantido o padrão, até que pare de dar dinheiro e "criem" outro que seja rentável. Assim como em outras épocas, há e haverá um determinado "padrão de beleza", assim como há um padrão de comportamento, um padrão de pensamento,etc. Tendo em vista que não somos robôs, acho que todo padrão é contrário à natureza humana. Mas acho também que cabe a nós ampliarmos nossos horizontes, pois é muito fácil pôr a culpa nos meios de comunicação em vez de assumirmos nossa responsabilidade pelo que pensamos. É muito mais fácil culpar a Globo pela baixa qualidade das novelas e por tudo que elas deseducam nossas crianças, que colocar a s crianças para verem outro tipo de programa ou trocaram a tevê por um livro. Sim, o homem é fruto do meio em que vive. Melhor dizendo, também é fruto do meio. Mas como seres dotados de livre arbítrio, podemos escolher, em grande medida, nosso meio. Entre assistir o Faustão, Pânico, um telejornal que só mostra desgraça ou o Big Brother, e assistir um vídeo educativo, conhecer as ideias de um grande pensador ou ler algum clássico da literatura, está a nossa autodeterminação. Eu tenho o poder de escolher. Posso criar o meu padrão. Claro, para isso é preciso que eu entenda o benefício de tais escolhas, assim como é necessária a reflexão (coisa que só o homem é capaz de fazer). Mas estou saindo do ponto e outras questões merecerão psotagens posteriores. Por enquanto, fiquemos com a palestra da super-modelo Cameron Russel(com legendas em português):



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Profeta

Lembrei d'O Profeta, de Khalil Gibran, e buscando achei este trecho. É um dos tantos maravilhosos que existem no livro, que faz tempo que não pego. Postarei outros, pois a obra inteira é excelente



"Vossos filhos não são vossos filhos,
 são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
 Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.  
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos.  
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;  
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria; 
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
 ama também o arco que permanece estável." 


O Profeta - Khalil Gibran

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Desarmamento

Mais um caso de tiroteio em escola americana. Desta vez, foi em Seattle, terra do grunge. Os mais sensíveis repetirão: "viu, país maluco, onde comprar arma é liberado. Só podia dar nisso!" As notícias preliminares indicam a possibilidade de 7 mortos.  Usando a matemática básica, chegamos à conclusão de que, se os americanos quisessem imitar o Brasil, precisariam ter um episódio igual a cada 49 minutos. Sim, a conta está certa. Se tivéssemos 1 episódio igual por semana, ao final de um ano teríamos 364 mortes em tais tipos de ataques. No Brasil, os homicídios ultrapassam os 50 mil por ano. Nos EUA, são cerca de 1/4 disso para uma população duas vezes maior; ou seja, proporcionalmente é 1/8 do que ocorre aqui. O total de armas? Nos EUA, são 20 vezes mais armas na mão do cidadão que no Brasil.
Sim, os ataques a escolas são chocantes. Sim, os EUA estão na frente em termos de violência entre os países desenvolvidos. Não, infelizmente não chegaremos perto deles num futuro próximo. Apesar de altos, os números americanos mostram que a correlação entre armas/violência não se confirma.

Bancos públicos

Muito se falou da utilização dos bancos públicos nesta eleição. E pouco se entendeu o porquê de falarem tanto sobre o assunto. Acredito que seja pelos seguintes  motivos:

Primeiro: o uso pouco criterioso dos recurso de tais bancos (BNDES mais notoriamente). Pouca gente entende por que o BNDES empresta $1 bilhão para investimentos em infraestrutura lá em Cuba, por exemplo. De fato, não há nada para se entender. Ao menos, do ponto de vista do interesse do povo brasileiro. Mas se ficarmos em terras brasileiras, veremos que os maiores beneficiados (assim como no caso do citado porto, foi a Odebrecht) são grandes empresas que não deveriam estar recebendo dinheiro "barato" do governo, pois elas já têm alta capacidade de financiarem seus próprios negócios. Já seria motivo suficiente para mudar o rumo do uso dos bancos públicos. Mas temos outro motivo ainda...
Segundo: o crescente endividamento de tais bancos com o Tesouro Nacional. O Tesouro, pra quem não sabe, é o caixa do Brasil. É o dinheiro público. Eis que o atual governo tem seguido uma linha de atuação muito interessante, algo que talvez possa ser enquadrado naquilo que os críticos têm chamado de contabilidade criativa. O governo sabe que não há recursos suficientes para investir em desenvolvimento e em benefícios sociais simultaneamente e em larga escala.  A conta não fecha, simples assim. Mas as benesses sociais são carro-chefe do governo, não podem ser cortadas. O problema é que a falta de condições estruturais exige uma intervenção severa em nossa economia, ainda mais na visão desenvolvimentista do governo. Ou seja, é preciso fomentar a economia na tentativa de melhorar o atual desempenho pífio. Também não é ideia do timoneiro cortar tais gastos. Qual foi a solução encontrada? A mesma que o pobre não muito inteligente geralmente usa: quando o dinheio estiver curto, em vez de reduzir gastos, vamos pedir um empréstimo. Quem sabe, até no cartão de crédito. É mais ou menos assim que o governo tem agido. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida do BNDES com o Tesouro nos últimos anos. O montante da dívida já chega a estratosféricos 10% do PIB.




E por que o governo age assim? Porque não tem seriedade, porque faz uma política populista e irresponsável, pouco se importando com o custo que isso pode ter no futuro do país. Uma alternativa para manter o nível de gastos exorbitantes seria o aumento da arrecadação. Mas aí seria preciso aumentar impostos. Povo algum gosta de aumento de imposto, então vamos "inventar" dinheiro de uma maneira que o povo não perceba, pois eles nem sabem o que é dívida pública. A explicação oficial provavelmente é a de que logo os investimentos darão o retorno esperado e o desenvolvimento da economia pagará a conta. Seria aceitável, fosse verdadeiro. O Brasil já viveu outros períodos da lógica desenvolvimentista e todos resultaram no mesmo: enorme dívida pública e prejuízos ao crescimento da economia. 

Se uma pessoa usasse a mesma solução, seria mais ou menos como ela pegar dinheiro do bolso direito e emprestar pro esquerdo. E ainda dizer: "tenho R$10 em dinheiro vivo no esquerdo e mais um crédito de R$10 no direito". O governo tem os meios de fazer isso, mas é claro que não pode inventar riqueza, assim como qualquer um de nós. Uma hora a conta chega, e aí o país vai buscar crédito onde houver, ou seja, nos demonizados bancos privados, que não cobrarão os juros amigos dos bancos públicos. Ou no FMI, que tem juros amigos mas é ainda mais demonizado. O que um governo responsável que venha a substituir o atual faria? Acabaria com os empréstimos do Tesouro e iria pagando a conta dos bancos até ter um débito aceitável. O custo disso? Dificuldade de financiar as benesses sociais ou os investimentos, tendo que optar em reduzir um ou outro, ou ambos. É assim que funciona com nossas contas também: se estou atolado em dívidas, todos sabemos qual é a solução, não é mesmo? 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Mãos talentosas

O americano Ben Carson é um dos maiores neurocirurgiões do mundo. A história dele é tão incrível que virou filme: Mãos Talentosas, com o Cuba Gooding Jr. Descobri o discurso dele na Fellowship Foundation (fundação cristã americana), no qual ele trata sobre muitos assuntos importantíssimos, como o politicamente correto, educação, pobreza, coitadismo, política, economia e mais um monte de coisas, como um pouco sobre a própria vida dele.
Gostaria que algo de tanta qualidade fosse passado na nossa tv toda semana. Aproveitem o dr. Ben Carson.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Os demônios


Fiódor Dostoiévski é tido por muitos como o maior escritor de todos os tempos. Ele, por sua vez, idolatrava o Quixote de Cervantes. Eu, como mero leitor ignorante, acho o russo (morto em 1881) monstruosamente bom, tendo algumas obras absolutamente fundamentais. Os Demônios é uma delas.

Os Demônios nasceu a partir de um episódio real, o assassinato de um jovem militante de esquerda por seus colegas revolucionários (do grupo Justiça Sumária do Povo). Dostoiévski então escreveu o romance reconstruindo o evento e fazendo a sua sempre magistral análise do ser humano. Dado o momento tão sensível no qual nos encontramos aqui no Brasil(no mundo?), achei muito interessante tirar as palavras dele da estante e dividir um pouquinho. Pequeno trecho:


Chigalióv é um homem genial! Sabe, é um gênio como Fourier; porém mais ousado que Fourier, mais forte que Fourier; vou cuidar dele. Ele inventou a “igualdade”! No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis! Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas, sempre trouxeram mais depravação do que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo. Ah, ah, ah, está achando estranho? Sou a favor do chigaliovismo! (Piotr Stiepánovitch, em Os Demônios)

Adiante, trechos do posfácio do tradutor, Paulo Bezerra:

Dostoiévski centra a atenção em detalhes mínimos da Justiça do Povo...nos métodos da organização, nos princípios ideológicos de sociedade, em sua propaganda, em seu programa. Este visa, entre outras coisas, a solapar o poder do Estado, a religião e seus símbolos, as instituições sociais, os alicerces morais da sociedade, desacreditar os representantes oficiais, a família, os valores consolidados da cultura russa...
...Aí está a questão central, o verdadeiro divisor de águas. Enquanto a crítica fica na superfície do fenômeno e não percebe seus movimentos internos, procura reduzir a dimensão do caso Nietchaiév a um único episódio sem antecedentes nem consequentes, Dostoiévski o vê em seu contraditório movimento interior e mostra em Os Demônios como ideias grandiosas e generosas, uma vez manipuladas por indivíduos sem consistência cultural nem princípios éticos, podem se transformar em sua negação imediata, assim como a utopia da liberdade, igualdade e da felicidade do homem pode degenerar na sua negação, no horror, na morte, na destruição. Ideias grandiosas não podem ser geridas por mentes pequenas que não fazem senão amesquinhá-las, por seres indigentes sem condição de compreender a essência profunda da natureza humana e prezar a liberdade do homem, por pessoas que fazem das ideias objeto de comprar e venda, moeda de troca com farsantes, vendilhões de liberalismo ou gente que jamais teve apreço por elas...
...e nesse concubinato passam a segundo plano as diferenças políticas e ideológicas e os que ontem apareciam como inimigos irreconciliáveis, hoje se entendem e até fazem alianças...
...é a redução das várias tendências de um movimento à sua caricatura grotesca sob a égide de indivíduos possuídos pela ideia do poder pelo poder, que, querendo auto-afirmar-se a qualquer custo, ultrapassam todos os limites, obliteram todas as objeções teóricas e obstáculos morais e criam uma engrenagem que transforma em "salvadores" e "vanguarda"  da humanidade indivíduos sem consistência moral e ideológica nem condição cultural para tais papéis. Estes, para manter seu poder, apelam para dois procedimentos: cercam-se de elementos incondicionalmente submissos, cegos às questões ético-ideológicas mas de olhos bem abertos para toda espécie de benesses; e criam em torno de si a aura mítica de sábios, profetas e heróis...

Não parece com algo já conhecido por nós? Pois é, e deveria mesmo ser conhecido. O livro foi escrito em 1872. Dostoiévski conhecia tal tipo de pessoas de perto, pois também fora militante de grupos socialistas, inclusive cumprindo pena na Sibéria por isso (que gerou Recordações da Casa dos Mortos). Ainda na prisão começou o afastamento das ideias socialistas. Quase 50 anos depois do episódio narrado no livro, a Rússia entrava na revolução bolchevique e o mundo mudaria para sempre (embora repetindo o passado). As obras de Dostoiévski foram proibidas pelos bolcheviques. Já a obra do líder revolucionário Nietchaiév, que ordenou o assassinato retratado, teria servido de guia e inspiração para Lênin. Abaixo, para não tornar o texto muito grande, o programa seguido pela Justiça Sumária do Povo, chamado de Catecismo Revolucionário. Qualquer semelhança entre as ideias apresentadas no texto acima e acontecimentos reais, do Brasil ou do mundo, não é mera coincidência.

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O CATECISMO REVOLUCIONÁRIO 

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM ELE PRÓPRIO: 

I - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida. Não tem nem negócios ou interesses pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem mesmo um nome. Nele tudo está absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: A Revolução. 

II - No mais profundo do seu ser, e não somente em palavras, mas também em atos, quebrou todo o laço com a ordem burguesa e o conjunto do mundo civilizado, assim como com as leis, as tradições, a moral e os costumes que têm lugar nesta sociedade. É o inimigo implacável desta sociedade, e, se aí continua a viver, é unicamente para melhor a destruir. 

III - Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição. É para este fim, e só para este fim, que estuda a mecânica, a física a química e, se a ocasião se apresentar, a medicina. É no mesmo propósito que se dedica, dia e noite, ao estudo das ciências da vida: os homens, os seus caracteres, as suas relações entre eles, assim como as condições que regem em todos os domínios a ordem social atual. O objetivo é sempre o mesmo: destruir o mais rapidamente e o mais seguramente possível esta ignominia que é a ordem universal. 

IV - O revolucionário despreza a opinião pública. Tem desprezo e ódio pela moral social atual, pelas suas diretivas e suas manifestações. Para ele, o que é moral, é o que favoriza o triunfo da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria. 

V - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, e que, em conseqüência, não mais é independente. Ele não tem qualquer deferência pelo Estado principalmente, ou por toda a classe cultivada da sociedade, e não deve daí esperá-las igualmente. Entre ele e a sociedade, um combate de morte é travado, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem misericórdia. Deve estar preparado para suportar todos os tormentos. 

VI - É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento, devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução. Não deve haver, dia e noite, mais que um pensamento e um objetivo: a destruição inexorável. E prosseguindo com sangue frio e sem descanso a realização deste plano, deve estar pronto a morrer, mas pronto a matar com as suas próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização. 

VII - A natureza do verdadeiro revolucionário exclui todo o romantismo, toda a sensibilidade, todo o entusiasmo, todo o impulso. Exclui também todo o sentimento de ódio ou de vinganças pessoais. A paixão revolucionária, tomada nele um hábito constante e quotidiano, deve unir-se ao cálculo frio. Por toda a parte e sempre é necessário obedecer-lhe , não aos seus impulsos pessoais, mas ao que exige o interesse geral da Revolução. 

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM SEUS CAMARADAS: 

VIII - O revolucionário não pode ter amizade e simpatia senão por aquele que demonstrou pelos seus atos que é igualmente um servidor da Revolução. A amizade, a dedicação, as obrigações passadas para com um tal camarada não se medem senão depois da sua utilidade no trabalho prático da revolução destruidora. 

IX - É supérfluo falar de solidariedade entre revolucionários: é sobre ela que repousa toda força de trabalho revolucionário. Os camaradas, que atingiram o mesmo grau de consciência e de paixão revolucionária, devem, tanto quanto possível, discutir em comum as questões importantes e tomar decisões unânimes. Para as executar cada um deve, antes de tudo, contar consigo próprio. Logo que se trate de executar uma série de atos de destruição, cada um deve operar por sua conta e risco e não reclamar ajuda ou assistência aos seus camaradas, porque isto é absolutamente indispensável para o sucesso do empreendimento. 

X - Todo o militante revolucionário deve ter à sua disposição alguns revolucionários de segunda ou terceira categoria, quer dizer, aqueles que ainda não foram admitidos em definitivo. Deve considerá-los como uma parte do capital comum posto à sua disposição. Deve gerir a sua parte de capital com economia e retirar o máximo de benefício. Deve-se considerar a si próprio como um capital necessário ao triunfo da revolução, capital de que não pode, contudo, dispor sozinho e sem consentimento do conjunto dos outros camaradas. 

XI - Todas as vezes que um camarada se encontra em perigo, o revolucionário, para saber se o deve salvar o não, não tem que consultar o seu sentimento pessoal, mas só e unicamente o interesse da causa revolucionária. Também lhe é necessário pensar por uma parte na utilidade que representa o seu camarada, por outra parte no dispêndio de forças revolucionárias que exigirá a sua libertação, e agir no sentido para onde pende a balança. 

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM A SOCIEDADE: 

XII - Um novo membro, depois de ter feito as suas provas, não em palavras, mas em atos, não pode ser admitido na Associação senão por unanimidade. 

XIII - Um revolucionário penetra no mundo do Estado, no mundo das classes, neste mundo que se pretende civilizado, e aí vive pela única razão de que acredita na sua próxima e total destruição. Não é um revolucionário, se ainda alguma coisa prende a este mundo. Não deve recuar, se se trata de quebrar algum laço que o una a este mundo decrépito, ou de destruir alguma instituição ou algum indivíduo. É-lhe necessário odiar igualmente tudo e todos. O pior para ele, é de ter ainda neste mundo laços de parentesco, de amizade ou de amor: não é um revolucionário, se semelhantes laços podem prender o seu braço. 

XIV - O revolucionário pode e deve freqüentemente, viver no seio da sociedade, em vista da sua implacável destruição, e dar ilusão de ser totalmente diferente do que realmente é. Um revolucionário deve procurar entradas em toda a parte, na alta sociedade como na classe média, nos comerciantes, no clero, na nobreza, no mundo dos funcionários, dos militares e dos escritores, na polícia secreta e até no palácio imperial. 

XV - Toda esta ignóbil sociedade se divide em várias categorias. A primeira compreende aqueles que são para suprimir sem demora. Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados, tendo em conta as suas maleficências relativas e os interesses da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números sejam liquidados antes dos outros. 

XVI - A feitura destas listas e o estabelecimento das categorias não devem depender do caráter pernicioso de tal ou tal indivíduo, nem do ódio que inspira aos membros da organização ou do povo. Este caráter pernicioso e este ódio podem mesmo ser úteis numa certa medida para empurrar o povo para a revolta. Deve-se somente ter em conta o grau de utilidade que representa a morte de tal ou tal pessoa para a obra revolucionária. É necessário executar primeiramente os indivíduos mais perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares mais enérgicos e mais inteligentes. 

XVII - A segunda categoria compreende aqueles a quem se deixa provisoriamente a vida, e cujos atos sublevarão a indignação do povo e o conduzirão inevitavelmente à revolta. 

XVIII - A terceira categoria é composta por um grande número de bestas brutas altamente colocadas, que não brilham nem pela inteligência, nem pela energia, mas que possuem, em razão da sua situação, riquezas, altas relações, de influência e de poder. É necessário explorá-los por todos os meios possíveis, agarrá-los nas nossas redes, fazer-lhes perder o controle, penetrar até o fundo dos seus segredos desonestos, e assim fazer deles os nossos escravos. Desta maneira o seu poder, as suas relações, a sua influência e a sua riqueza serão para nós um tesouro inesgotável e um precioso socorro nos múltiplos empreendimentos. 

XIX - A quarta categoria compreende toda a espécie de funcionários ambiciosos, assim como os liberais das diferentes tendências. Pode-se conspirar com estes últimos adotando o seu próprio programa fazendo-lhes acreditar que o seguem cegamente. É necessário tomar bem em mãos, apoderar-se dos seus segredos, comprometê-los a fundo para lhes tornar impossível qualquer retirada, e servir-se deles para provocar perturbações no Estado. 

XX - A quinta categoria compreende os doutrinários, os conspiradores, os revolucionários, todas as pessoas que tagarelam nas reuniões ou escrevem no papel. É necessário, sem cessar, empurrá-los, comprometê-los com manifestações práticas e perigosas: o resultado será o desaparecimento do maior número, enquanto que alguns se revelarão como verdadeiros revolucionários. 

XXI - A sexta categoria é de uma grande importância: trata-se das mulheres, que convém dividir em três classes. A primeira compreende as mulheres superficiais, sem espírito e sem coração, de que é necessário servir-se da mesma maneira como os homens da terceira e quarta categorias. Incluímos na segunda classe as mulheres inteligentes, apaixonadas, prontas a dedicarem-se, que não estão ainda nas nossas fileiras, porque elas não chegam ainda a uma inteligência revolucionária prática e sem verborréia. É necessário utiliza-las como aos homens de quinta categoria. Vem enfim, as mulheres que estão completamente conosco, quer dizer, que estão totalmente integradas e aceitaram integralmente o nosso programa. Devemos considerá-las como o nosso tesouro mais precioso e a sua ajuda é indispensável em todos os nossos empreendimentos. 

DEVERES DA ASSOCIAÇÃO PARA COM O POVO: 

XXII - A associação não tem outro objetivo que a emancipação total e a felicidade do povo, quer dizer, da parte da humanidade constrangida a trabalhos duros. Mas, persuadido que esta emancipação e esta felicidade não podem ser atingidas senão através de uma revolução popular que destruirá toda a sociedade, a associação colocará tudo em curso para aumentar e multiplicar os males e os sofrimentos que encolerizarão a paciência do povo e desencadearão a sua revolta massiva. 

XXIII - Pelo nome de "Revolução Popular" a nossa sociedade não entende um movimento de tipo clássico ocidental, que não atinge em nenhum caso nem propriedade privada, nem a ordem social transmitida pela dita civilização e a pretensa moralidade, e que se limitou até agora a suprimir um sistema político para o substituir por um outro e fundar um Estado dito revolucionário. Só pode trazer a salvação ao povo uma revolução que condene absolutamente toda a idéia de Estado perturbe completamente na Rússia as tradições, as instituições e as classes sociais do Estado. 

XXIV - Neste objetivo a Associação não tem de modo algum a intenção de impor ao povo qualquer organização vinda de cima. A futura organização sairá, sem dúvida, do movimento da vida popular, mas isto será obra das gerações vindouras. A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal. 

XXV - Também é necessário, aproximar-nos do povo, procurar, antes de tudo, a aliança com estes elementos da vida popular, que, desde a fundação do Estado moscovita, são, sem cessar, educados contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado: nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes, e numa palavra, contra todos os exploradores do povo. É necessário aliarmo-nos com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários. 

XXVI - Reunir todos estes elementos para fazer uma força única, invencível e capaz de destruir tudo: tal é a razão de ser de toda a nossa organização, de toda a nossa conspiração, de todo o nosso empreendimento.

domingo, 5 de outubro de 2014

O gringo, novamente

Imagino que 1 ou 2 pessoas tenham lido o texto sobre o Gramsci. Pois bem, para os valentes que leram e acharam que é muita teoria da conspiração, registro de vídeo do perfil do governador pinóquio no Facebook, antes das eleições. Alguém reconhece a foto ao fundo?


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eu vou morrer?

Excelente TED Talk. Só para quem gosta de pensar. Ele é um socorrista respondendo à pergunta característica dos pacientes gravíssimos: "eu vou morrer?". Legendas em inglês e espanhol. Se nenhuma das duas te serve, ótima hora para começar a estudar.



sábado, 27 de setembro de 2014

Direita e esquerda

Muito bom debate sobre o que seriam esquerda e direita. Pra quem nunca teve maiores informações, é bastante esclarecedor.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Yankees go home!

Sempre que vejo um discurso antiamericano - e tá aí uma coisa que temos sobrando no Brasil - me lembro d'A Vida de Brian, uma obra-prima dos ingleses do Monty Python. Depois de ver que nossa anta, digo, presidenta, criticou os ataques americanos ao Estado Islâmico (aquele povo ponderado que arranca cabeças quando não tem nada melhor pra fazer), lembrei do Brian. Se A Vida de Brian não é a melhor comédia de todos os tempos, tenho certeza de que deveria figurar na lista das 3 mais. Sempre. Brian nasce numa manjedoura, no mesmo dia e hora, e ao lado daquela onde nasceu Jesus Cristo. Desde o nascimento ele é confundido com o messias, e por isso é perseguido desde então. Humor inteligente desde 1979. Pois bem, mas falávamos dos yankees. Sim, eu também já falei um monte de bobagens, mesmo ouvindo rock, vendo filmes de Hollywood, comendo no McDonalds e usando a internet (com exceção do lanche horrível, sigo fazendo todas as outras coisas). A campanha permanente de depreciar os americanos-imperialistas-capitalistas-filhos-da-mãe é muito eficaz. Não que eles sejam perfeitos; as críticas têm lá o seu lugar. O problema é quando a coisa passa dos limites do ridículo, e tu tens um esquerda caviar(achei muito adequada a nomeclatura) teclando do seu iPhone, acessando o Facebook pela internet, usando seu Nike e ouvindo hip-hop(que é tão ruim ou pior que o funk carioca).
Eis que o Brian, como contemporâneo de Jesus, vive o início da dominação romana, com toda a revolta dos dominados. Diversos grupos revolucionários, que pretendem atacar os romanos, aparecem no filme. Em uma das reuniões, e aí reside a lembrança que me fez escrever, um dos líderes (tal e qual a Luciana Genro ou qualquer outro abobado líder esquerdista) pergunta: O QUE NOS DERAM OS ROMANOS? Abaixo o vídeo (não achei dublado ou legendado) e a transcrição do diálogo. Qualquer semelhança é mera coincidência:






— Já nos sangraram, os bastardos. Já nos tomaram tudo o que tínhamos. E não só de nós. Dos nossos pais e dos pais dos nossos pais. E dos pais dos pais dos nossos pais. Sim…
 E dos pais dos pais dos pais dos pais…
 Certo, Stam. Não precisa insistir. E o que eles nos deram em troca?
 O aqueduto.
 Como?
 O aqueduto.
 Oh, sim, sim. Eles nos deram isso, é verdade.
 E o saneamento.
 Ah, é, saneamento, Reg! Você lembra como a cidade era…
 Certo. Eu concedo que o aqueduto e o saneamento são duas coisas que os romanos fizeram.
 E as estradas.
 Bem, e obviamente as estradas. Nem era preciso falar disso. 
Mas fora o saneamento, o aqueduto e as estradas…
 A irrigação.
 A medicina.
 A educação.
 A Saúde.
 Tudo bem, já chega!
 E o vinho.
 Ah, é… É verdade. Isso é algo que vai nos fazer falta se os romanos forem embora, Reg…
 Casas de banho públicas.
 E agora é seguro andar nas ruas à noite.
 Ah, sim, os romanos certamente sabem manter a ordem. Vamos reconhecer: são os únicos que poderiam fazer isso num lugar como esse.
 Tudo bem, tudo bem, mas fora o saneamento, a medicina, a educação, o vinho, a ordem pública, a irrigação, as estradas, o sistema de água e a saúde pública, o que os romanos fizeram por nós?
 Trouxeram a paz!
 O quê? Oh… Paz? Sim… Cale-se!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Coimbra, novamente

Pode parecer mera preguiça, e um pouco é. Mas que posso fazer se as duas colunas foram excelentes? Com a cara e a coragem, o David tem virado uma voz que vai contra a manada do politicamente correto e aponta o óbvio. Ainda tem brasileiros que são homens de verdade, felizmente.

Homens de verdade

Os valores masculinos estão em extinção. Disso eu já sabia. E, antes que os vigilantes ideológicos saltem feito salmões de suas redes sociais, corro a ressaltar: valores masculinos não têm nada a ver com homofobia ou machismo. Um homem de verdade pode ser homossexual. Um homem de verdade defende as mulheres quando outros, homens ou mulheres, tentam diminuí-las.
Feita essa ressalva em homenagem aos chatolas da nação, prossigo: os valores masculinos estão em extinção. Ser homem, um dia, significou ser leal, inclusive aos seus inimigos. Significou enfrentar as contingências da vida sem se lamuriar. Significou ter respeito pela privacidade e pela liberdade dos outros, mesmo que você não fizesse o que os outros faziam com a sua privacidade e a sua liberdade.
O homem resistia de espinha ereta. O homem não era sórdido, traiçoeiro, fofoqueiro, manhoso. Ser homem era adjetivo. “Seja homem!”, alguém dizia, e você sabia que tinha de se recompor, você sabia que estava à beira do fiasco.
Isso começou quando esses caras passaram a usar brinco. Sim, eu sei que lutadores de MMA usam brinco. Mas quem diz que um sujeito, por ser mais forte do que os outros, é homem de verdade? O Stephen Hawking não dá em ninguém, e lá está um homem de verdade.
Mas, como dizia, os caras passaram a usar brinco. Lembro quando o Celso Roth mandou um jogador dele tirar o brinco. Ninguém entendeu. Diziam que o comportamento do Roth era anacrônico, ultrapassado. Nada disso. Celso Roth estava tentando fazer um time com homens de verdade. Grande Celso Roth. Sabe das coisas.
Em 1977, o Grêmio montou um time com homens de verdade. O símbolo desse time era o zagueiro Oberdan, que um dia declarou:
— Quando esse time for campeão, ninguém vai chorar.
Aquele time foi campeão. E ninguém chorou.
Aquele time foi campeão contra outro time de homens de verdade. O Inter dos anos 70 era feito por jogadores que andavam com o queixo erguido. Não por acaso, o símbolo daquele Inter era outro zagueiro: Dom Elias Figueroa.
Lembrar de Figueroa faz pensar como o futebol se efeminou de lá para cá. Figueroa quebrava narizes de centroavantes a cotoveladas, Tarciso e Palhinha que o digam. Era errado, todo mundo achava errado, todo mundo continua achando errado e, não, florzinhas, não: não é por isso que Figueroa era um homem de verdade. A violência não faz de ninguém homem de verdade, ao contrário. No caso de Figueroa, o que ele fazia era intimidar o adversário.
Todo mundo sabia disso, inclusive o adversário. Ao tentar a intimidação, Figueroa corria riscos, e os assumia. Podia ser expulso, o que seria ruim. Ou podia encontrar um adversário que não se intimidasse, o que seria pior. Joãozinho, por exemplo, não se intimidava: enfiava a bola goela abaixo do Figueroa de tanto driblá-lo e, assim, o Cruzeiro venceu a maioria dos inesquecíveis duelos dos anos 70 contra o Inter.
Joãozinho era homem de verdade. Os melhores atacantes sabiam ser homens de verdade: Romário nunca reclamou de zagueiro; enfrentou-os. Pelé, se tentassem se meter com ele, teriam troco em gols.
Hoje, mesmo os zagueiros são manhosos. Felipão está tentando ensinar a seus zagueiros como se comportar dentro da grande área: sem queixas, sem hesitações, sem tergiversar, sem brincos na orelha. Como homens de verdade.
Desses que não existem mais.

O Aranha e os bundinhas - David Coimbra

Vocês acham MESMO que o que aconteceu na Arena quinta-feira passada foi racismo? Vocês acham MESMO que o Aranha foi vaiado e xingado por ser negro? Ou faz parte da natural tendência autoritária de vocês de fazer vigilância moral? Se vocês acham mesmo, vou explicar por que estão equivocados.
É o seguinte: o Aranha não foi vaiado por ser negro. O Aranha foi vaiado porque se tornou protagonista de um episódio que prejudicou o Grêmio. Trata-se de uma regra bem simples. Anote aí: “Um torcedor de futebol, quando está no estádio torcendo pelo seu time, xinga, vaia, ofende e insulta todo e qualquer indivíduo, ideia ou instituição que, de alguma forma, tenha feito ou queira fazer algo que ele, torcedor, julgue que seja negativo para o seu time, esteja certo ou errado este indivíduo, essa ideia ou essa instituição”.
Para vocês compreenderem melhor, imaginem o seguinte: se a Madre Tereza de Calcutá entrar em campo com a camisa do Inter, será vaiada pelos gremistas; se Ghandi, Mandela e o iluminado Buda entrarem em campo com a camisa do Grêmio, serão vaiados pelos colorados. Não interessa que princípios a pessoa esteja defendendo, se não estiver defendendo o clube do torcedor.
Assim, se vocês, intelectuais paladinos da luta contra os preconceitos no Brasil, consideram o Aranha o nosso Martin Luther King e o veneram, o torcedor do Grêmio está pouco se lixando para isso, mas não pelo Aranha ser o Martin Luther debaixo das traves, não por ele ser negro, APENAS PORQUE ELE FOI O PRINCIPAL PERSONAGEM DE UMA OCORRÊNCIA QUE TIROU O GRÊMIO DE UMA COMPETIÇÃO.
Entendeu?
Cara, o Brasil virou um país de bundas moles.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Vamos estudar

Cheguei a escrever quase todo o texto sobre a filha do governador pinóquio, aquele, que criou o piso do magistério mas nunca o pagou. Aí cansei. Felizmente, fizeram um vídeo dizendo quase tudo que eu queria (e um monte de coisas que eu nem falaria). Assistam aí:


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mi Buenos Aires querido...

...cada dia mais vai pro brejo. Ontem foi aprovada a tal "Lei de abastecimento", que nada mais é que o último ato de um governo com caráter socialista, totalmente na prática a partir de agora. A lei dá poderes ao Executivo para definir limites de lucro, de preço, de cotas de produção, dá poderes para o governo suspender ou mesmo fechar estabelecimentos. A Venezuela começou da mesmíssima maneira, e sabemos no que deu. Por que o governo fez isso? Acredito que, principalmente, para passar para o povo a impressão de que a culpa da inflação alta é do empresariado. Eles têm passado a imagem de que os preços altos são culpa da ganância dos empresários e, limitando os lucros, eles resolveriam isso. É fácil, muito mais fácil que explicar pro povo os fundamentos da economia. As reiteradas ações do governo têm afastado os investimentos da Argentina (e a bronca com o dólar é uma das principais) e, agora, é o ato final para que os empresários fujam da Argentina. Quem vai arriscar seu patrimônio para ter uma margem de lucro definida arbitrariamente pelo governo?

Nesse contexto, muitas coisas que acontecem no Brasil podem ficar mais claras. A atualmente tão falada autonomia do BC, que o governo dos ladrões teima em dizer que é algo demoníaco, é um exemplo. Los hermanos tinham um BC autônomo. O que aconteceu? Quando, em 2010, o então presidente do banco começou a dificultar o uso das reservas pelo governo, a ditadora deu um jeito de acabar com a autonomia. Agora o BC serve aos descalabros do governo, com reservas cada dia mais baixas, emissão contínua de dinheiro(inflação, no português), descontrole fiscal. O atual presidente do banco tem criticado sistematicamente as ações do governo, mostrando que tais ações implicam a impossibilidade de recolocar a economia nos eixos. De maneira que o gurizinho da Kirchner, o tal Kicillof, quer derrubar ele imediatamente. A briga está feia, pois o presidente do BC tem feito críticas severas e abertas ao ministro da Economia, inclusive em reuniões com empresários, banqueiros e políticos. 

E assim nós vamos, rumo a uma América Latina bolivariana por inteiro.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Lupicínio

100 anos do nascimento de Lupicínio Rodrigues. Lupi, para os porto alegrenses. O inventor da dor de cotovelo. Boêmio acima de tudo:

 "Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boêmio"

Minúscula homenagem, letra e música de "Não sou de reclamar":


Eu não sou de reclamar,

Eu não sou

Mas o que estou sofrendo

É demais
Nos lugares onde eu vou
Quem conhece quem eu sou
Diz que sou o mais covarde dos mortais.
E queriam que eu matasse
O crime não compensa
Só Deus dá a sentença 
ao pecador.
Se eu matasse não podia esperar
Ver algum dia
As lágrima cruéis do meu amor.
Se queriam que eu matasse
O crime não compensa
Só Deus dá a sentença 
ao pecador.


Mais do mesmo

A mesma tática de sempre, esculhambar os opositores, não importa como. A nova campanha dos mafiosos externa aquilo que já estava visto há muito tempo. Quem critica, apontando o óbvio, é pessimista. Pra ser gente boa, tem que acreditar. Pior que muita gente ainda acredita. Obviamente teremos Olimpíadas, que serão outro fiasco em termos de organização, uso do dinheiro público e ganhos para o povo. Em Porto Alegre, somente três obras de mobilidade urbana foram entregues na Copa: duplicação da Beira-Rio e Padre Cacique, viaduto da rodoviária e linha do aeromóvel. O aeromóvel custou R$ 40 milhões para levar ninguém, de nada a lugar nenhum. O viaduto da rodoviária, considerado entregue, tinha fitas e cones sinalizando uma obra em andamento, de tal maneira que até hoje as obras continuam. Não é estética, tem retroescavadeira no local. Na Beira-Rio, o viaduto aquele que certificaram ser seguro, está novamente passando por reparos; dizem ser estética. Na Padre Cacique, todo o corredor de ônibus será desmanchado e refeito. As demais obras prometidas estão longe de serem entregues. Óbvio que a responsabilidade só é parcialmente do governo federal, pois o município é quem responde pela execução de quase tudo. Independente disso, quem mais ganha fazendo propaganda dos grandes avanços que nunca vieram foi o governo federal. Os estádios milionários, alguns dos quais sem utilidade alguma, já começam a apresentar defeitos. Mas vamos acreditar, companheiros, que 12 anos não foram suficientes pra abalar nossa fé:


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Galão d'água - Martha Medeiros

Reproduzo o relato que minha filha recebeu pelo whatsapp de uma garota brasileira que mora no Japão: Ontem veio um homem aqui e deixou um galão dágua na frente da minha porta. Disse que durante a madrugada eles fariam uma vistoria nos encanamentos de água do bairro e por isso estavam passando para avisar, deixar o galão e pedir desculpas por terem que desligar o registro de água por algumas horas. 

Eu disse para ele que não precisava deixar a água, afinal, estaríamos dormindo nesse horário, mas ele respondeu: Você paga suas contas todos os meses e nós temos obrigação de não deixar você sem água nem por um minuto. E ainda disse: Se precisar de mais, pode pedir. E assim seguiu a distribuir nas outras casas. Durante a madrugada, olhei pela janela e havia um grupo trabalhando nas ruas em silêncio. Hoje vieram novamente, casa por casa, só para agradecer. 

Pois é. Não é assim que deveria ser tudo na vida? Decência, responsabilidade e educação: por que é tão raro, tão complicado? A simplicidade da cena: um galão d’água deixado de porta em porta para o caso de os moradores terem alguma eventual necessidade às duas horas da manhã, às três horas da manhã. 

Não é caridade, e sim direito do cidadão que paga taxas e impostos. Eu não deveria me comover com isso, mas me comovo, porque a gente cumpre com os compromissos como qualquer japonês, qualquer sueco, qualquer canadense, mas onde está a contrapartida? 

Acho que isso explica nossa desesperança de que uma eleição mude alguma coisa. Já não acreditamos que um candidato consiga não se deixar corromper pelo poder, que possa governar sem dever favores para outros partidos, que solucione as mazelas do povo em detrimento das negociatas de gabinete. Política passou a ter um sentido desvirtuado. 

Ninguém obriga um homem ou uma mulher a se candidatar a um cargo público. Se ele se oferece para a missão de governar, deveria fazer isso unicamente por seu espírito altruísta. Mas soa como piada. Altruísmo na política brasileira? Tem graça.

Um galão d’água na porta. Um serviço de atendimento ao consumidor que funcione de forma fácil. Um policial em cada esquina. Nota fiscal entregue em todas as transações comerciais. Lixeiras por toda parte. Ruas bem sinalizadas. Transporte farto, barato e que cumpra horários. Hospitais com vagas dia e noite. Escolas eficientes. Confiança em vez de burocracia. Sinceridade em vez de enrolação. Agilidade em vez de empurrar com a barriga. Se todo mundo concorda que é assim que tem que ser, por que não acontece, quem emperra? 

Não é só culpa de quem governa, mas dos governados também. Viciados em retórica, seduzidos por vantagens exclusivas e não coletivas, sempre nos perguntando “como posso faturar com essa situação?”, não permitimos que o Brasil se moralize e avance. 

Galão d’água na porta de casa? Só com um troquinho por fora, meu irmão.

O menino que domou o vento

Algum tempo atrás assisti ao seguinte vídeo e, claro, achei maravilhoso. Tanto que comprei o livro "O menino que descobriu o vento", escrito pelo William Kamkwamba e pelo jornalista Bryan Mealer. Ainda não li, e o livro está ali na estante me olhando há alguns meses. Voltando ao vídeo. É bom para que a gente faça nossa autocrítica e também para recarregar nossa baterias de esperança no ser humano. Acho a natureza fantástica, e o ser humano é a mais fantástica das coisas da natureza.



Robin Hood ao contrário

Matéria do Estadão:
Custo dos subsídios do Tesouro ao BNDES chega a R$ 23 bilhões este ano

Comentários de Paulo Roberto Almeida:
Os companheiros dizem querer fazer justiça social. Fazem, só que ao contrário. Dão umas migalhas para os pobres, não para tirá-los da pobreza, mas para fazer um curral eleitoral e deixá-los eternamente dependentes de sua demagogia. E dão um bolão de dinheiro para quem já é rico, como os industriais, por exemplo.
Meus comentários:
Assim fica mais fácil explicar os números maravilhosos mostrados pelo BNDES. O que ocorre é o seguinte: o Tesouro (ou seja, nosso dinheiro) dá dinheiro para o BNDES financiar as grandes empresas e obras (como o Porto de Mariel) a condições bem mais favoráveis. Está feito o círculo vicioso, onde empresas conseguem excelentes condições sem maiores esforços, a não ser ficarem compromissadas com o governo paternalista. Embora sejam coisas distintas, é por isso eles pregam tanto contra a independência do Banco Central, pois com um BC preocupado em fazer aquilo que deveria, em vez de fazer aquilo que é conveniente para o governo do momento, a campanha eleitoral ficaria mais complicada.

A matéria da EBC é bem didática sobre a questão:
http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2014-04/fds-renegociacao-de-dividas-do-bndes-custara-r-92-bilhoes-ao-tesouro

sábado, 13 de setembro de 2014

Ser ou não ser, eis a questão

Há pouco disse que não sou fã do Pondé. Mas já estou quase sendo. Sempre concordei com muitas de suas ideias, mas além de ser um tanto pedante (como todo "filósofo") acho ele meio sei lá. Sabe sei lá? Pois é. Enfim, ótima entrevista dele para a Zero Hora de amanhã (coisas que só o RS faz pra você). Bem inclinado a comprar o livro. Divirtam-se.


http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/luiz-felipe-ponde-o-mundo-e-muito-mais-iraque-do-que-oslo-4597853.html

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sexta-feira

É sexta, mas o espírito é o mesmo do sábado. Bom final de semana todos.


Tinha que ser um gringo

De fato, não acredito em uma teoria da conspiração tão ampla e milimetricamente planejada como fazem alguns (tipo o maluco do Olavo de Carvalho). Em geral, as pessoas caminham para onde bem querem, embora sejam influenciadas na caminhada. O que se faz, na maioria das vezes e desde sempre, é alcançar o fósforo pra quem já queria mesmo atear fogo. Talvez eu diga isso só como conforto, pra não ficar tão assustado. No entanto, é bastante difícil não associar os acontecimentos atuais às ideias do comunista italiano Antonio Gramsci. Os esquerdinhas que nunca leram vão dizer que não tem nada a ver, obviamente. Por isso mesmo, resolvi fazer citações tiradas do site do Partido comunista Brasileiro, pra não dizerem que é coisa da direita. Pra quem não sabe, Gramsci fundou o partido comunista italiano e é o ideólogo fundamental de todos os partidos de esquerda. A "Hegemonia Cultural" é o grande legado dele para os partidos que almejam o poder; suas teorias foram criadas basicamente no período em que esteve preso pelo regime fascista (talvez venha daí a crença esquerdista de que eles lutam pela liberdade, quando na verdade eles lutavam era pelo poder, e a mania de atribuírem a todos que discordam deles a qualidade de "fascistas"). São suas "Memórias do Cárcere". Pois bem, sendo extremamente simplista, Gramsci observou que a tomada do poder pela força não era mais algo viável: além de o próprio processo ser por demais desgastante, após a conquista o povo se mostrava contrário ao regime. Foi então que ele fundamentou sua hegemonia cultural, que prega a conversão de corações e mentes à ideologia, preferencialmente antes do poder partidário, para que as pessoas acabassem por desejar o regime. Para isso, é fundamental destruir a cultura tradicional:

"A postura revolucionária exige permanente embate contra as filosofias tradicionais, implícitas, de forma desorganizada e fragmentada no senso comum, mas a elaboração das novas idéias hegemônicas não pode prescindir de tudo aquilo que é próprio do senso comum, pois este traduz “espontaneamente a filosofia das multidões”. É preciso garantir o vínculo permanente da filosofia da práxis com as aspirações populares, de forma a que as novas ideias se enraízem na consciência do povo com a mesma força das crenças tradicionais."

Por cultura tradicional entenda-se todos os valores historicamente construídos, pois eles seriam fruto dos valores da classe hegemônica e, portanto, indesejáveis. Eu ou tu, uma vez que não somos da classe dominante, não temos ideias próprias. Nossas ideias são fruto da lógica que sustenta o poder dos burgueses. É verdade? De fato, até é. Talvez sempre seja. É ruim? Não; ao menos, não é intrinsecamente ruim. A igualdade entre as pessoas é uma invenção teórica. Nunca fomos iguais, em lugar algum, em tempo algum. Nem irmãos gêmeos são iguais, criados pelas mesmas pessoas, com os mesmos valores, com as mesmas condições financeiras. Me parece que a busca pela igualdade é mais um esforço para que não exista o diferente. Autoritários não suportam aquilo que é diferente. Frustrados também não.

Voltando ao ponto: Gramsci defendia ainda uma mudança fundamental, sem a qual o poder dos corações e mentes não teria maior utilidade. É preciso reduzir permanentemente a estrutura institucional. Instituições e leis (criadas para manter o domínio vigente, blablabla) devem ceder espaço a uma participação popular progressivamente maior. O povo, que a essa altura já pensa de maneira homogênea, é quem deve decidir. Por isso partidos de esquerda defendem tanto os "conselhos populares" e minam continuamente as instituições existentes.
A hegemonia cultural é conseguida através de longa e ampla disseminação dos valores marxistas, das mais variadas formas. Basicamente, eles buscam desconstruir tudo, em todas as frentes possíveis. Aí surge a figura do intelectual-orgânico:

"Para a construção desta concepção de mundo crítica, coerente e unitária, assume papel decisivo a ação dos intelectuais de novo tipo, conforme propõe Gramsci. Ao contrário do intelectual tradicional, um profissional da eloqüência e do discurso, a exercer o monopólio do saber na sociedade, o novo intelectual, o intelectual orgânico, deve portar-se como um organizador da vontade coletiva, um construtor da nova hegemonia, um “persuasor permanente”, que necessita garantir sua inserção ativa e contínua na vida prática. Comprometido em elaborar e difundir a visão de mundo a ser universalizada, ou seja, a ser abraçada como verdade pelos agentes sociais, sua função é essencial no estabelecimento do consenso “espontâneo” a ser dado pelos indivíduos e grupos à orientação da facção hegemônica para a vida social, procedimento necessário para a conquista e a posterior conservação do poder revolucionário."

E aí chegamos ao motivo deste post. Tenho visto claramente, há bastante tempo, que uma quantidade enorme de intelectuais-orgânicos, no sentido gramsciano mesmo, tomou conta dos meios de comunicação. Nossos formadores de opinião. Para mim, não há no RS maior e mais covarde que o sr. Juremir Machado da Silva, colunista do Correio do Povo. Hoje o vivente escreveu o seguinte:

"Ninguém tem direito de não gostar de negros. Ninguém tem o direito de impedir a entrada de negros em qualquer lugar. Até pouco tempo, no entanto, isso acontecia em muitos lugares, inclusive em clubes tradicionais e tradicionalistas de nossas cidades. Eu vi. Eu estive lá. Eu acompanhei. Passei a infância e a adolescência vendo isso acontecer. Se o juiz de uma cidade pede emprestado um local para organizar um casamento coletivo e é atendido, o dono do local não tem o direito de estabelecer restrições que contrariem a lei ou se baseiem em preconceitos raciais, religiosos, sexuais, etc. O dono do salão não pode dizer ao juiz: “Empresto o salão desde que não tenha casamento de negro”. Alguém defenderia o contrário atualmente em nome de uma tradição? Não. Ninguém tem o direito de não gostar de negros. Ninguém tem o direito de não gostar de homossexuais. Eu posso organizar um clube que só aceite comedores de sorvete de morango. Isso não é socialmente sentido como discriminatório. Mas legalmente não se sustentaria por muito tempo."

Em primeiro lugar, é de uma arrogância imensa. Ele, ser superior, define o que pode e o que não pode ser feito. Não posso gostar de negros? Claro que posso! Posso não gostar de negros, de homossexuais, de gordos, de petistas. Posso até não gostar de ninguém que não seja eu. Gosto do que eu quiser. Não posso desrespeitar, não posso ofender, não posso prejudicar por conta das minhas preferências. São coisas absolutamente distintas. Não bastasse isso, ele ainda usa de uma covardia intelectual monstruosa, ao associar o acontecido no CTG ao racismo. Acaso tinha algum negro na estória? Não. Por que então ele usou isso como argumento? Porque a maioria esmagadora é contra o racismo. Ao associar racismo com a contrariedade ao casamento gay no CTG ele acaba por induzir as pessoas a serem também a favor do tal casamento. E assim vão, aos poucos, formando a hegemonia cultural.

No fundo, o que essa gente quer é a promessa dourada do socialismo: poder para todos. Gramsci disse, sobre sua escola unitária: "“A tendência democrática de escola não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar governante”. É o sonho dos frustrados, a promessa de serem eles também governantes. De serem os poderosos. Vemos hoje isso em toda a sociedade, onde crianças se sentem tão poderosas quanto seus pais. Não sabem limpar a bunda, nunca produziram nada para seu próprio sustento, mas enchem a boca pra dizer "eu tenho direito!" Vemos quando um vadio qualquer, que preferiu jogar bola a ir pro colégio, que prefere ficar no boteco a trabalhar todo dia, que gasta em festa em vez de investir na educação -enquanto nós e muitos outros com origem muito mais humilde estávamos trabalhando e estudando, dando duro e criando nosso próprio progresso- encher a boca e dizer: "eu quero meus direitos!" Não somos todos iguais? Não é isso que pregam as esquerdas? Se somos todos iguais, direitos iguais. O problema é que a riqueza e os meios para garantir todo e qualquer direito não crescem em árvores, não têm geração espontânea. Precisam ser criados por alguém. Mas isso eles não dizem. Não ajudaria a alcançar o objetivo deles.

"Tá, mas então, no fim das contas, tu tá querendo dizer que acredita que tem uma revolução comunista em andamento?" Sim e não. Sim, porque os métodos usados são os mesmos, pelas mesmas pessoas. E eles não estão mais criando isso, já foi criado, está sendo finalizado. Não, porque ninguém mais quer ser governante de um país comunista. Já viram que não dá certo. O que eles querem é o poder, como sempre.

Queria encerrar lembrando que as citações são do próprio Gramsci ou do PCB (http://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=8:antonio-gramsci-e-a-construcao-da-nova-hegemonia&catid=2:artigos). Para quem acha que PCB e PT são coisas totalmente distintas, deixe de preguiça é vá estudar um pouco.