terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Gente de açúcar

(Achei o vídeo completo, sabia que existia) Resume perfeitamente o que penso. Gosto muito deste cara, um dos pouquíssimos que ainda diz as coisas como eles devem ser ditas:




Chris Kyle

Vi esses dias o filme Sniper Americano. Sim, sou meio atrasado pra algumas coisas. Puta filme, puta história. O livro chegou hoje, logo será aberto. (Comecei a escrever isso semanas atrás, comecei a ler o livro)

Muitas vezes sou mal interpretado (ou me expresso mal) quando falo de filmes. Ok, sei que não é muito comum assistir filmes fora do padrão hollywood-mcdonalds (de certa forma, as novelas da Globo seriam os equivalentes nacionais). Esses enlatados são aqueles filmes com pouca história, muito efeito especial, superficialidade, cortes de câmera a cada 10s e cerca de 2h de vida jogada fora, sem nada a acrescentar. Ok, não é proibido ver filme assim. Me obriguei a ver filmes fora desse padrão, partindo pros latinos, europeus e asiáticos. Foi a fórceps, mas foi. Cinema, pra mim, é arte. E arte tem que tocar. Tem que criar conexão. Se o filme não me toca, não me coloca pra pensar, não me faz sentir algo, é uma bosta. Não me venham com "mas é bem feito". O supermercado tá cheio de produtos bem feitos. Filme não é isso (ao menos pra mim). Sniper Americano definitivamente não é um produto bem feito. É arte. E sim, Hollywood tem centenas de obras de arte.

Todo mundo já sabe que é baseado na história real de Chris Kyle, sniper dos SEALS da marinha americana que combateu no Iraque por 10 anos e ganhou a alcunha de "A Lenda", por ter mais mortes confirmadas que qualquer outro na história (em verdade, por ter salvado muitos soldados americanos com seus disparos).  Um homem íntegro, com enorme senso de dever, com aquela índole de protetor dos demais e também, de certa forma, um cowboy comum como qualquer outro. Claro, além de um talento enorme para a função.

Um cara que sentiu um dever inescapável de ajudar seus compatriotas que estavam morrendo nos campos de batalha. Sacrificou muito da vida pessoal por conta disso. Mas não conseguia viver sua vidinha comum vendo outros soldados morrendo. Pior, sabendo que se estivesse lá, ele poderia ter salvado muitos deles. De certa forma, na minha visão é isso que define um homem de verdade: um senso de dever (não como um escravo ou um acéfalo) profundo, impossível de ser mascarado. Sabendo que ele deveria estar lá, não conseguiria mais fazer outra coisa.

Esse dever é algo extremamente pessoal, que é sentido, não é racionalizado. Pode ser uma missão de vida ou mesmo uma situação eventual. Pra mim, pode ser um único momento em toda a tua vida, no qual entre viver e fazer o que é certo (o que DEVE ser feito), a escolha é morrer. Como a máxima samurai: "entre a vida e a morte, sempre a morte". Também chamam isso de integridade.


Outro fato que certamente choca os mais sensíveis (ou ingênuos, ou idealistas, ou...etc) são as mortes. De crianças, inclusive, O fato é que quando se parte para a 'guerra' - no Iraque ou num assalto, tanto faz - as escolhas já foram tomadas. Nenhum assaltante, estuprador, terrorista, etc, vai mudar de opinião no meio de um confronto. A única coisa que vai evitar que cheguem a seu objetivo é uma reação contrária. Matar o menino (no livro, quem morre é a mãe, e está acompanhada de uma menina; não fica claro se a granada explode e ela morre também, acho que aí ficou por conta de Hollywood) deve ter sido duro e parece algo abominável. Sim, é abominável. Mas para quem estava lá, era a única saída. Na guerra só existem duas verdades: ou se vive, ou se morre. E ninguém pretende morrer,

Outro ponto que me tocou foi a relação do casal. A mulher, como todas, muito ansiosa, curiosa e preocupada com ele. Chega a perguntar se ele já havia matado alguém. Sinceramente, só uma mulher ou um abobado pra fazer uma pergunta dessas. Mas é comum, elas perguntam coisas assim. Duvido que alguma mulher de samurai, de cavalheiro medieval, de viking, de espartano, fizesse uma pergunta dessas. Elas compreendiam que aquilo não fazia parte do mundo delas, nem deveria. Não é só uma questão de sexo, até porque existem soldados femininas. Como é que se assume uma morte para quem não tem a menor ideia do que seja matar? As pessoas vivem em muitos mundos diferentes. Alguns a gente pode dividir, outros são bem particulares.

Entra o conflito entre a missão e a vida familiar. A mulher dele foi muito guerreira. Em verdade, não teve escolha. Após toda a tormenta, recuperou o marido e parceiro para perdê-lo por conta de um soldado que ele tentou ajudar.


O funeral dele foi algo incrível .Toda  a estrutura, a quantidade de pessoas que acompanharam a passagem do cortejo fúnebre, o velório no estádio dos Dallas Cowboys...de fato, teríamos que passar por um sofrimento massivo, que afetasse o país de um canto a outro. Mas não por conta-gotas; um sofrimento aos milhares de litros. Talvez assim pudéssemos chegar à profundidade de sentimento e reconhecimento que os americanos têm por seus heróis. O país parou por conta da morte de um único soldado. Uma procissão por 360 km, com milhares de pessoas prestando homenagem. Mesmo os veículos que seguiam na pista contrária, ao cruzar pela procissão, paravam para prestar o seu respeito. É algo totalmente inimaginável para o nosso país. Meu mais profundo respeito pelos americanos. Sem dúvida, é um povo valoroso.

Abaixo, vídeo do cortejo fúnebre do herói Chris "A Lenda" Kyle. É tocante, daquelas coisas que tocam lá dentro, nas tripas:


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Buk já sabia

A primeira vez que li Bukowski, odiei. Era A Mulher Mais Linda da Cidade. Eu era muito novo e, definitivamente, não é o livro mais indicado pra começar Bukowski. A menos que tu seja tão maluco quanto ele.

Sempre detestei os revoltadinhos que se acham 'OS' fãs de Bukowski. Sempre me pareceu que eles só querem encontrar uma boa desculpa pra viverem chapados, bêbados ou pra posarem de 'malditos'. Em geral, têm a profundidade de uma bacia. São os outsiders mais inside que já vi.
Sim, o velho safado era bem maluco, bêbado inveterado e totalmente à margem (mentira, nem ele acreditava nisso - mas chegava perto).

Todo esse blá-blá-blá pra dizer que o Buk era foda, escrevia muito, falava de muita coisa importante e era, com toda sua coleção de defeitos, um cara com coração. E que, arrumando meus livros, parei pra ler um pouco e achei essa pérola. É um trechinho de Um bate-papo tranquilo, que faz parte do Fabulário geral do delírio cotidiano.
Como se vê, nada mudou:

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-você fala como um autêntico reacionário.
-não tenho partido, sou mero observador.
-ainda bem que nem todos seguem o teu exemplo, senão não ia se chegar a parte alguma.
-e aonde foi que chegamos?
-ué, e pensa que eu sei?
-eu também não. só sei que há uma porção de revolucionários por aí que são umas verdadeiras bestas e, o que é pior, CHATOS, mas chatos a mais não poder. cara, eu não quero dizer que não se deve ajudar os pobres, educar quem nunca teve instrução, hospitalizar quem vive doente e por aí afora. o que eu quero dizer é que a gente está tratando esses revolucionários como se fossem santos, quando têm muitos que não passam de pobres-diabos, com problemas de espinha na pele, abandonados pelas mulheres e com essa porra de simbolozinhos da Paz pendurados por uma corda no pescoço. há vários que são meros oportunistas e que fariam melhor em ir trabalhar na Fábrica Ford. se é que conseguiriam pistolão pra entrar lá. não quero saber de mudar de governo e ir de mal a pior - que é o que se tem feito em cada eleição.
- ainda acho que uma revolução iria acabar com muita bandalheira que existe por aí
- ganhando ou perdendo, vai acabar mesmo. e com uma porção de coisas boas e ruins. a história da humanidade é muito lenta. eu, por mim, prefiro assistir de camarote.
-pra poder observar melhor lá de cima.
-exatamente. toma outra cerveja.