Muitas vezes sou mal interpretado (ou me expresso mal) quando falo de filmes. Ok, sei que não é muito comum assistir filmes fora do padrão hollywood-mcdonalds (de certa forma, as novelas da Globo seriam os equivalentes nacionais). Esses enlatados são aqueles filmes com pouca história, muito efeito especial, superficialidade, cortes de câmera a cada 10s e cerca de 2h de vida jogada fora, sem nada a acrescentar. Ok, não é proibido ver filme assim. Me obriguei a ver filmes fora desse padrão, partindo pros latinos, europeus e asiáticos. Foi a fórceps, mas foi. Cinema, pra mim, é arte. E arte tem que tocar. Tem que criar conexão. Se o filme não me toca, não me coloca pra pensar, não me faz sentir algo, é uma bosta. Não me venham com "mas é bem feito". O supermercado tá cheio de produtos bem feitos. Filme não é isso (ao menos pra mim). Sniper Americano definitivamente não é um produto bem feito. É arte. E sim, Hollywood tem centenas de obras de arte.
Todo mundo já sabe que é baseado na história real de Chris Kyle, sniper dos SEALS da marinha americana que combateu no Iraque por 10 anos e ganhou a alcunha de "A Lenda", por ter mais mortes confirmadas que qualquer outro na história (em verdade, por ter salvado muitos soldados americanos com seus disparos). Um homem íntegro, com enorme senso de dever, com aquela índole de protetor dos demais e também, de certa forma, um cowboy comum como qualquer outro. Claro, além de um talento enorme para a função.
Um cara que sentiu um dever inescapável de ajudar seus compatriotas que estavam morrendo nos campos de batalha. Sacrificou muito da vida pessoal por conta disso. Mas não conseguia viver sua vidinha comum vendo outros soldados morrendo. Pior, sabendo que se estivesse lá, ele poderia ter salvado muitos deles. De certa forma, na minha visão é isso que define um homem de verdade: um senso de dever (não como um escravo ou um acéfalo) profundo, impossível de ser mascarado. Sabendo que ele deveria estar lá, não conseguiria mais fazer outra coisa.
Esse dever é algo extremamente pessoal, que é sentido, não é racionalizado. Pode ser uma missão de vida ou mesmo uma situação eventual. Pra mim, pode ser um único momento em toda a tua vida, no qual entre viver e fazer o que é certo (o que DEVE ser feito), a escolha é morrer. Como a máxima samurai: "entre a vida e a morte, sempre a morte". Também chamam isso de integridade.
Outro ponto que me tocou foi a relação do casal. A mulher, como todas, muito ansiosa, curiosa e preocupada com ele. Chega a perguntar se ele já havia matado alguém. Sinceramente, só uma mulher ou um abobado pra fazer uma pergunta dessas. Mas é comum, elas perguntam coisas assim. Duvido que alguma mulher de samurai, de cavalheiro medieval, de viking, de espartano, fizesse uma pergunta dessas. Elas compreendiam que aquilo não fazia parte do mundo delas, nem deveria. Não é só uma questão de sexo, até porque existem soldados femininas. Como é que se assume uma morte para quem não tem a menor ideia do que seja matar? As pessoas vivem em muitos mundos diferentes. Alguns a gente pode dividir, outros são bem particulares.
Entra o conflito entre a missão e a vida familiar. A mulher dele foi muito guerreira. Em verdade, não teve escolha. Após toda a tormenta, recuperou o marido e parceiro para perdê-lo por conta de um soldado que ele tentou ajudar.
O funeral dele foi algo incrível .Toda a estrutura, a quantidade de pessoas que acompanharam a passagem do cortejo fúnebre, o velório no estádio dos Dallas Cowboys...de fato, teríamos que passar por um sofrimento massivo, que afetasse o país de um canto a outro. Mas não por conta-gotas; um sofrimento aos milhares de litros. Talvez assim pudéssemos chegar à profundidade de sentimento e reconhecimento que os americanos têm por seus heróis. O país parou por conta da morte de um único soldado. Uma procissão por 360 km, com milhares de pessoas prestando homenagem. Mesmo os veículos que seguiam na pista contrária, ao cruzar pela procissão, paravam para prestar o seu respeito. É algo totalmente inimaginável para o nosso país. Meu mais profundo respeito pelos americanos. Sem dúvida, é um povo valoroso.
Abaixo, vídeo do cortejo fúnebre do herói Chris "A Lenda" Kyle. É tocante, daquelas coisas que tocam lá dentro, nas tripas:

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