Mais um caso de tiroteio em escola americana. Desta vez, foi em Seattle, terra do grunge. Os mais sensíveis repetirão: "viu, país maluco, onde comprar arma é liberado. Só podia dar nisso!" As notícias preliminares indicam a possibilidade de 7 mortos. Usando a matemática básica, chegamos à conclusão de que, se os americanos quisessem imitar o Brasil, precisariam ter um episódio igual a cada 49 minutos. Sim, a conta está certa. Se tivéssemos 1 episódio igual por semana, ao final de um ano teríamos 364 mortes em tais tipos de ataques. No Brasil, os homicídios ultrapassam os 50 mil por ano. Nos EUA, são cerca de 1/4 disso para uma população duas vezes maior; ou seja, proporcionalmente é 1/8 do que ocorre aqui. O total de armas? Nos EUA, são 20 vezes mais armas na mão do cidadão que no Brasil.
Sim, os ataques a escolas são chocantes. Sim, os EUA estão na frente em termos de violência entre os países desenvolvidos. Não, infelizmente não chegaremos perto deles num futuro próximo. Apesar de altos, os números americanos mostram que a correlação entre armas/violência não se confirma.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Bancos públicos
Muito se falou da utilização dos bancos públicos nesta eleição. E pouco se entendeu o porquê de falarem tanto sobre o assunto. Acredito que seja pelos seguintes motivos:
Primeiro: o uso pouco criterioso dos recurso de tais bancos (BNDES mais notoriamente). Pouca gente entende por que o BNDES empresta $1 bilhão para investimentos em infraestrutura lá em Cuba, por exemplo. De fato, não há nada para se entender. Ao menos, do ponto de vista do interesse do povo brasileiro. Mas se ficarmos em terras brasileiras, veremos que os maiores beneficiados (assim como no caso do citado porto, foi a Odebrecht) são grandes empresas que não deveriam estar recebendo dinheiro "barato" do governo, pois elas já têm alta capacidade de financiarem seus próprios negócios. Já seria motivo suficiente para mudar o rumo do uso dos bancos públicos. Mas temos outro motivo ainda...
Segundo: o crescente endividamento de tais bancos com o Tesouro Nacional. O Tesouro, pra quem não sabe, é o caixa do Brasil. É o dinheiro público. Eis que o atual governo tem seguido uma linha de atuação muito interessante, algo que talvez possa ser enquadrado naquilo que os críticos têm chamado de contabilidade criativa. O governo sabe que não há recursos suficientes para investir em desenvolvimento e em benefícios sociais simultaneamente e em larga escala. A conta não fecha, simples assim. Mas as benesses sociais são carro-chefe do governo, não podem ser cortadas. O problema é que a falta de condições estruturais exige uma intervenção severa em nossa economia, ainda mais na visão desenvolvimentista do governo. Ou seja, é preciso fomentar a economia na tentativa de melhorar o atual desempenho pífio. Também não é ideia do timoneiro cortar tais gastos. Qual foi a solução encontrada? A mesma que o pobre não muito inteligente geralmente usa: quando o dinheio estiver curto, em vez de reduzir gastos, vamos pedir um empréstimo. Quem sabe, até no cartão de crédito. É mais ou menos assim que o governo tem agido. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida do BNDES com o Tesouro nos últimos anos. O montante da dívida já chega a estratosféricos 10% do PIB.
Primeiro: o uso pouco criterioso dos recurso de tais bancos (BNDES mais notoriamente). Pouca gente entende por que o BNDES empresta $1 bilhão para investimentos em infraestrutura lá em Cuba, por exemplo. De fato, não há nada para se entender. Ao menos, do ponto de vista do interesse do povo brasileiro. Mas se ficarmos em terras brasileiras, veremos que os maiores beneficiados (assim como no caso do citado porto, foi a Odebrecht) são grandes empresas que não deveriam estar recebendo dinheiro "barato" do governo, pois elas já têm alta capacidade de financiarem seus próprios negócios. Já seria motivo suficiente para mudar o rumo do uso dos bancos públicos. Mas temos outro motivo ainda...
Segundo: o crescente endividamento de tais bancos com o Tesouro Nacional. O Tesouro, pra quem não sabe, é o caixa do Brasil. É o dinheiro público. Eis que o atual governo tem seguido uma linha de atuação muito interessante, algo que talvez possa ser enquadrado naquilo que os críticos têm chamado de contabilidade criativa. O governo sabe que não há recursos suficientes para investir em desenvolvimento e em benefícios sociais simultaneamente e em larga escala. A conta não fecha, simples assim. Mas as benesses sociais são carro-chefe do governo, não podem ser cortadas. O problema é que a falta de condições estruturais exige uma intervenção severa em nossa economia, ainda mais na visão desenvolvimentista do governo. Ou seja, é preciso fomentar a economia na tentativa de melhorar o atual desempenho pífio. Também não é ideia do timoneiro cortar tais gastos. Qual foi a solução encontrada? A mesma que o pobre não muito inteligente geralmente usa: quando o dinheio estiver curto, em vez de reduzir gastos, vamos pedir um empréstimo. Quem sabe, até no cartão de crédito. É mais ou menos assim que o governo tem agido. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida do BNDES com o Tesouro nos últimos anos. O montante da dívida já chega a estratosféricos 10% do PIB.
E por que o governo age assim? Porque não tem seriedade, porque faz uma política populista e irresponsável, pouco se importando com o custo que isso pode ter no futuro do país. Uma alternativa para manter o nível de gastos exorbitantes seria o aumento da arrecadação. Mas aí seria preciso aumentar impostos. Povo algum gosta de aumento de imposto, então vamos "inventar" dinheiro de uma maneira que o povo não perceba, pois eles nem sabem o que é dívida pública. A explicação oficial provavelmente é a de que logo os investimentos darão o retorno esperado e o desenvolvimento da economia pagará a conta. Seria aceitável, fosse verdadeiro. O Brasil já viveu outros períodos da lógica desenvolvimentista e todos resultaram no mesmo: enorme dívida pública e prejuízos ao crescimento da economia.
Se uma pessoa usasse a mesma solução, seria mais ou menos como ela pegar dinheiro do bolso direito e emprestar pro esquerdo. E ainda dizer: "tenho R$10 em dinheiro vivo no esquerdo e mais um crédito de R$10 no direito". O governo tem os meios de fazer isso, mas é claro que não pode inventar riqueza, assim como qualquer um de nós. Uma hora a conta chega, e aí o país vai buscar crédito onde houver, ou seja, nos demonizados bancos privados, que não cobrarão os juros amigos dos bancos públicos. Ou no FMI, que tem juros amigos mas é ainda mais demonizado. O que um governo responsável que venha a substituir o atual faria? Acabaria com os empréstimos do Tesouro e iria pagando a conta dos bancos até ter um débito aceitável. O custo disso? Dificuldade de financiar as benesses sociais ou os investimentos, tendo que optar em reduzir um ou outro, ou ambos. É assim que funciona com nossas contas também: se estou atolado em dívidas, todos sabemos qual é a solução, não é mesmo?
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Mãos talentosas
O americano Ben Carson é um dos maiores neurocirurgiões do mundo. A história dele é tão incrível que virou filme: Mãos Talentosas, com o Cuba Gooding Jr. Descobri o discurso dele na Fellowship Foundation (fundação cristã americana), no qual ele trata sobre muitos assuntos importantíssimos, como o politicamente correto, educação, pobreza, coitadismo, política, economia e mais um monte de coisas, como um pouco sobre a própria vida dele.
Gostaria que algo de tanta qualidade fosse passado na nossa tv toda semana. Aproveitem o dr. Ben Carson.
Gostaria que algo de tanta qualidade fosse passado na nossa tv toda semana. Aproveitem o dr. Ben Carson.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Os demônios
Fiódor Dostoiévski é tido por muitos como o maior escritor de todos os tempos. Ele, por sua vez, idolatrava o Quixote de Cervantes. Eu, como mero leitor ignorante, acho o russo (morto em 1881) monstruosamente bom, tendo algumas obras absolutamente fundamentais. Os Demônios é uma delas.
Os Demônios nasceu a partir de um episódio real, o assassinato de um jovem militante de esquerda por seus colegas revolucionários (do grupo Justiça Sumária do Povo). Dostoiévski então escreveu o romance reconstruindo o evento e fazendo a sua sempre magistral análise do ser humano. Dado o momento tão sensível no qual nos encontramos aqui no Brasil(no mundo?), achei muito interessante tirar as palavras dele da estante e dividir um pouquinho. Pequeno trecho:
Chigalióv é um homem genial! Sabe, é um gênio como Fourier; porém mais ousado que Fourier, mais forte que Fourier; vou cuidar dele. Ele inventou a “igualdade”! No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis! Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas, sempre trouxeram mais depravação do que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo. Ah, ah, ah, está achando estranho? Sou a favor do chigaliovismo! (Piotr Stiepánovitch, em Os Demônios)
Adiante, trechos do posfácio do tradutor, Paulo Bezerra:
Dostoiévski centra a atenção em detalhes mínimos da Justiça do Povo...nos métodos da organização, nos princípios ideológicos de sociedade, em sua propaganda, em seu programa. Este visa, entre outras coisas, a solapar o poder do Estado, a religião e seus símbolos, as instituições sociais, os alicerces morais da sociedade, desacreditar os representantes oficiais, a família, os valores consolidados da cultura russa......Aí está a questão central, o verdadeiro divisor de águas. Enquanto a crítica fica na superfície do fenômeno e não percebe seus movimentos internos, procura reduzir a dimensão do caso Nietchaiév a um único episódio sem antecedentes nem consequentes, Dostoiévski o vê em seu contraditório movimento interior e mostra em Os Demônios como ideias grandiosas e generosas, uma vez manipuladas por indivíduos sem consistência cultural nem princípios éticos, podem se transformar em sua negação imediata, assim como a utopia da liberdade, igualdade e da felicidade do homem pode degenerar na sua negação, no horror, na morte, na destruição. Ideias grandiosas não podem ser geridas por mentes pequenas que não fazem senão amesquinhá-las, por seres indigentes sem condição de compreender a essência profunda da natureza humana e prezar a liberdade do homem, por pessoas que fazem das ideias objeto de comprar e venda, moeda de troca com farsantes, vendilhões de liberalismo ou gente que jamais teve apreço por elas......e nesse concubinato passam a segundo plano as diferenças políticas e ideológicas e os que ontem apareciam como inimigos irreconciliáveis, hoje se entendem e até fazem alianças......é a redução das várias tendências de um movimento à sua caricatura grotesca sob a égide de indivíduos possuídos pela ideia do poder pelo poder, que, querendo auto-afirmar-se a qualquer custo, ultrapassam todos os limites, obliteram todas as objeções teóricas e obstáculos morais e criam uma engrenagem que transforma em "salvadores" e "vanguarda" da humanidade indivíduos sem consistência moral e ideológica nem condição cultural para tais papéis. Estes, para manter seu poder, apelam para dois procedimentos: cercam-se de elementos incondicionalmente submissos, cegos às questões ético-ideológicas mas de olhos bem abertos para toda espécie de benesses; e criam em torno de si a aura mítica de sábios, profetas e heróis...
Não parece com algo já conhecido por nós? Pois é, e deveria mesmo ser conhecido. O livro foi escrito em 1872. Dostoiévski conhecia tal tipo de pessoas de perto, pois também fora militante de grupos socialistas, inclusive cumprindo pena na Sibéria por isso (que gerou Recordações da Casa dos Mortos). Ainda na prisão começou o afastamento das ideias socialistas. Quase 50 anos depois do episódio narrado no livro, a Rússia entrava na revolução bolchevique e o mundo mudaria para sempre (embora repetindo o passado). As obras de Dostoiévski foram proibidas pelos bolcheviques. Já a obra do líder revolucionário Nietchaiév, que ordenou o assassinato retratado, teria servido de guia e inspiração para Lênin. Abaixo, para não tornar o texto muito grande, o programa seguido pela Justiça Sumária do Povo, chamado de Catecismo Revolucionário. Qualquer semelhança entre as ideias apresentadas no texto acima e acontecimentos reais, do Brasil ou do mundo, não é mera coincidência.
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O CATECISMO REVOLUCIONÁRIO
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM ELE PRÓPRIO:
I - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida. Não tem nem negócios ou interesses pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem mesmo um nome. Nele tudo está absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: A Revolução.
II - No mais profundo do seu ser, e não somente em palavras, mas também em atos, quebrou todo o laço com a ordem burguesa e o conjunto do mundo civilizado, assim como com as leis, as tradições, a moral e os costumes que têm lugar nesta sociedade. É o inimigo implacável desta sociedade, e, se aí continua a viver, é unicamente para melhor a destruir.
III - Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição. É para este fim, e só para este fim, que estuda a mecânica, a física a química e, se a ocasião se apresentar, a medicina. É no mesmo propósito que se dedica, dia e noite, ao estudo das ciências da vida: os homens, os seus caracteres, as suas relações entre eles, assim como as condições que regem em todos os domínios a ordem social atual. O objetivo é sempre o mesmo: destruir o mais rapidamente e o mais seguramente possível esta ignominia que é a ordem universal.
IV - O revolucionário despreza a opinião pública. Tem desprezo e ódio pela moral social atual, pelas suas diretivas e suas manifestações. Para ele, o que é moral, é o que favoriza o triunfo da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria.
V - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, e que, em conseqüência, não mais é independente. Ele não tem qualquer deferência pelo Estado principalmente, ou por toda a classe cultivada da sociedade, e não deve daí esperá-las igualmente. Entre ele e a sociedade, um combate de morte é travado, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem misericórdia. Deve estar preparado para suportar todos os tormentos.
VI - É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento, devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução. Não deve haver, dia e noite, mais que um pensamento e um objetivo: a destruição inexorável. E prosseguindo com sangue frio e sem descanso a realização deste plano, deve estar pronto a morrer, mas pronto a matar com as suas próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização.
VII - A natureza do verdadeiro revolucionário exclui todo o romantismo, toda a sensibilidade, todo o entusiasmo, todo o impulso. Exclui também todo o sentimento de ódio ou de vinganças pessoais. A paixão revolucionária, tomada nele um hábito constante e quotidiano, deve unir-se ao cálculo frio. Por toda a parte e sempre é necessário obedecer-lhe , não aos seus impulsos pessoais, mas ao que exige o interesse geral da Revolução.
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM SEUS CAMARADAS:
VIII - O revolucionário não pode ter amizade e simpatia senão por aquele que demonstrou pelos seus atos que é igualmente um servidor da Revolução. A amizade, a dedicação, as obrigações passadas para com um tal camarada não se medem senão depois da sua utilidade no trabalho prático da revolução destruidora.
IX - É supérfluo falar de solidariedade entre revolucionários: é sobre ela que repousa toda força de trabalho revolucionário. Os camaradas, que atingiram o mesmo grau de consciência e de paixão revolucionária, devem, tanto quanto possível, discutir em comum as questões importantes e tomar decisões unânimes. Para as executar cada um deve, antes de tudo, contar consigo próprio. Logo que se trate de executar uma série de atos de destruição, cada um deve operar por sua conta e risco e não reclamar ajuda ou assistência aos seus camaradas, porque isto é absolutamente indispensável para o sucesso do empreendimento.
X - Todo o militante revolucionário deve ter à sua disposição alguns revolucionários de segunda ou terceira categoria, quer dizer, aqueles que ainda não foram admitidos em definitivo. Deve considerá-los como uma parte do capital comum posto à sua disposição. Deve gerir a sua parte de capital com economia e retirar o máximo de benefício. Deve-se considerar a si próprio como um capital necessário ao triunfo da revolução, capital de que não pode, contudo, dispor sozinho e sem consentimento do conjunto dos outros camaradas.
XI - Todas as vezes que um camarada se encontra em perigo, o revolucionário, para saber se o deve salvar o não, não tem que consultar o seu sentimento pessoal, mas só e unicamente o interesse da causa revolucionária. Também lhe é necessário pensar por uma parte na utilidade que representa o seu camarada, por outra parte no dispêndio de forças revolucionárias que exigirá a sua libertação, e agir no sentido para onde pende a balança.
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM A SOCIEDADE:
XII - Um novo membro, depois de ter feito as suas provas, não em palavras, mas em atos, não pode ser admitido na Associação senão por unanimidade.
XIII - Um revolucionário penetra no mundo do Estado, no mundo das classes, neste mundo que se pretende civilizado, e aí vive pela única razão de que acredita na sua próxima e total destruição. Não é um revolucionário, se ainda alguma coisa prende a este mundo. Não deve recuar, se se trata de quebrar algum laço que o una a este mundo decrépito, ou de destruir alguma instituição ou algum indivíduo. É-lhe necessário odiar igualmente tudo e todos. O pior para ele, é de ter ainda neste mundo laços de parentesco, de amizade ou de amor: não é um revolucionário, se semelhantes laços podem prender o seu braço.
XIV - O revolucionário pode e deve freqüentemente, viver no seio da sociedade, em vista da sua implacável destruição, e dar ilusão de ser totalmente diferente do que realmente é. Um revolucionário deve procurar entradas em toda a parte, na alta sociedade como na classe média, nos comerciantes, no clero, na nobreza, no mundo dos funcionários, dos militares e dos escritores, na polícia secreta e até no palácio imperial.
XV - Toda esta ignóbil sociedade se divide em várias categorias. A primeira compreende aqueles que são para suprimir sem demora. Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados, tendo em conta as suas maleficências relativas e os interesses da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números sejam liquidados antes dos outros.
XVI - A feitura destas listas e o estabelecimento das categorias não devem depender do caráter pernicioso de tal ou tal indivíduo, nem do ódio que inspira aos membros da organização ou do povo. Este caráter pernicioso e este ódio podem mesmo ser úteis numa certa medida para empurrar o povo para a revolta. Deve-se somente ter em conta o grau de utilidade que representa a morte de tal ou tal pessoa para a obra revolucionária. É necessário executar primeiramente os indivíduos mais perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares mais enérgicos e mais inteligentes.
XVII - A segunda categoria compreende aqueles a quem se deixa provisoriamente a vida, e cujos atos sublevarão a indignação do povo e o conduzirão inevitavelmente à revolta.
XVIII - A terceira categoria é composta por um grande número de bestas brutas altamente colocadas, que não brilham nem pela inteligência, nem pela energia, mas que possuem, em razão da sua situação, riquezas, altas relações, de influência e de poder. É necessário explorá-los por todos os meios possíveis, agarrá-los nas nossas redes, fazer-lhes perder o controle, penetrar até o fundo dos seus segredos desonestos, e assim fazer deles os nossos escravos. Desta maneira o seu poder, as suas relações, a sua influência e a sua riqueza serão para nós um tesouro inesgotável e um precioso socorro nos múltiplos empreendimentos.
XIX - A quarta categoria compreende toda a espécie de funcionários ambiciosos, assim como os liberais das diferentes tendências. Pode-se conspirar com estes últimos adotando o seu próprio programa fazendo-lhes acreditar que o seguem cegamente. É necessário tomar bem em mãos, apoderar-se dos seus segredos, comprometê-los a fundo para lhes tornar impossível qualquer retirada, e servir-se deles para provocar perturbações no Estado.
XX - A quinta categoria compreende os doutrinários, os conspiradores, os revolucionários, todas as pessoas que tagarelam nas reuniões ou escrevem no papel. É necessário, sem cessar, empurrá-los, comprometê-los com manifestações práticas e perigosas: o resultado será o desaparecimento do maior número, enquanto que alguns se revelarão como verdadeiros revolucionários.
XXI - A sexta categoria é de uma grande importância: trata-se das mulheres, que convém dividir em três classes. A primeira compreende as mulheres superficiais, sem espírito e sem coração, de que é necessário servir-se da mesma maneira como os homens da terceira e quarta categorias. Incluímos na segunda classe as mulheres inteligentes, apaixonadas, prontas a dedicarem-se, que não estão ainda nas nossas fileiras, porque elas não chegam ainda a uma inteligência revolucionária prática e sem verborréia. É necessário utiliza-las como aos homens de quinta categoria. Vem enfim, as mulheres que estão completamente conosco, quer dizer, que estão totalmente integradas e aceitaram integralmente o nosso programa. Devemos considerá-las como o nosso tesouro mais precioso e a sua ajuda é indispensável em todos os nossos empreendimentos.
DEVERES DA ASSOCIAÇÃO PARA COM O POVO:
XXII - A associação não tem outro objetivo que a emancipação total e a felicidade do povo, quer dizer, da parte da humanidade constrangida a trabalhos duros. Mas, persuadido que esta emancipação e esta felicidade não podem ser atingidas senão através de uma revolução popular que destruirá toda a sociedade, a associação colocará tudo em curso para aumentar e multiplicar os males e os sofrimentos que encolerizarão a paciência do povo e desencadearão a sua revolta massiva.
XXIII - Pelo nome de "Revolução Popular" a nossa sociedade não entende um movimento de tipo clássico ocidental, que não atinge em nenhum caso nem propriedade privada, nem a ordem social transmitida pela dita civilização e a pretensa moralidade, e que se limitou até agora a suprimir um sistema político para o substituir por um outro e fundar um Estado dito revolucionário. Só pode trazer a salvação ao povo uma revolução que condene absolutamente toda a idéia de Estado perturbe completamente na Rússia as tradições, as instituições e as classes sociais do Estado.
XXIV - Neste objetivo a Associação não tem de modo algum a intenção de impor ao povo qualquer organização vinda de cima. A futura organização sairá, sem dúvida, do movimento da vida popular, mas isto será obra das gerações vindouras. A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal.
XXV - Também é necessário, aproximar-nos do povo, procurar, antes de tudo, a aliança com estes elementos da vida popular, que, desde a fundação do Estado moscovita, são, sem cessar, educados contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado: nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes, e numa palavra, contra todos os exploradores do povo. É necessário aliarmo-nos com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários.
XXVI - Reunir todos estes elementos para fazer uma força única, invencível e capaz de destruir tudo: tal é a razão de ser de toda a nossa organização, de toda a nossa conspiração, de todo o nosso empreendimento.
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O CATECISMO REVOLUCIONÁRIO
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM ELE PRÓPRIO:
I - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida. Não tem nem negócios ou interesses pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem mesmo um nome. Nele tudo está absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: A Revolução.
II - No mais profundo do seu ser, e não somente em palavras, mas também em atos, quebrou todo o laço com a ordem burguesa e o conjunto do mundo civilizado, assim como com as leis, as tradições, a moral e os costumes que têm lugar nesta sociedade. É o inimigo implacável desta sociedade, e, se aí continua a viver, é unicamente para melhor a destruir.
III - Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição. É para este fim, e só para este fim, que estuda a mecânica, a física a química e, se a ocasião se apresentar, a medicina. É no mesmo propósito que se dedica, dia e noite, ao estudo das ciências da vida: os homens, os seus caracteres, as suas relações entre eles, assim como as condições que regem em todos os domínios a ordem social atual. O objetivo é sempre o mesmo: destruir o mais rapidamente e o mais seguramente possível esta ignominia que é a ordem universal.
IV - O revolucionário despreza a opinião pública. Tem desprezo e ódio pela moral social atual, pelas suas diretivas e suas manifestações. Para ele, o que é moral, é o que favoriza o triunfo da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria.
V - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, e que, em conseqüência, não mais é independente. Ele não tem qualquer deferência pelo Estado principalmente, ou por toda a classe cultivada da sociedade, e não deve daí esperá-las igualmente. Entre ele e a sociedade, um combate de morte é travado, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem misericórdia. Deve estar preparado para suportar todos os tormentos.
VI - É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento, devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução. Não deve haver, dia e noite, mais que um pensamento e um objetivo: a destruição inexorável. E prosseguindo com sangue frio e sem descanso a realização deste plano, deve estar pronto a morrer, mas pronto a matar com as suas próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização.
VII - A natureza do verdadeiro revolucionário exclui todo o romantismo, toda a sensibilidade, todo o entusiasmo, todo o impulso. Exclui também todo o sentimento de ódio ou de vinganças pessoais. A paixão revolucionária, tomada nele um hábito constante e quotidiano, deve unir-se ao cálculo frio. Por toda a parte e sempre é necessário obedecer-lhe , não aos seus impulsos pessoais, mas ao que exige o interesse geral da Revolução.
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM SEUS CAMARADAS:
VIII - O revolucionário não pode ter amizade e simpatia senão por aquele que demonstrou pelos seus atos que é igualmente um servidor da Revolução. A amizade, a dedicação, as obrigações passadas para com um tal camarada não se medem senão depois da sua utilidade no trabalho prático da revolução destruidora.
IX - É supérfluo falar de solidariedade entre revolucionários: é sobre ela que repousa toda força de trabalho revolucionário. Os camaradas, que atingiram o mesmo grau de consciência e de paixão revolucionária, devem, tanto quanto possível, discutir em comum as questões importantes e tomar decisões unânimes. Para as executar cada um deve, antes de tudo, contar consigo próprio. Logo que se trate de executar uma série de atos de destruição, cada um deve operar por sua conta e risco e não reclamar ajuda ou assistência aos seus camaradas, porque isto é absolutamente indispensável para o sucesso do empreendimento.
X - Todo o militante revolucionário deve ter à sua disposição alguns revolucionários de segunda ou terceira categoria, quer dizer, aqueles que ainda não foram admitidos em definitivo. Deve considerá-los como uma parte do capital comum posto à sua disposição. Deve gerir a sua parte de capital com economia e retirar o máximo de benefício. Deve-se considerar a si próprio como um capital necessário ao triunfo da revolução, capital de que não pode, contudo, dispor sozinho e sem consentimento do conjunto dos outros camaradas.
XI - Todas as vezes que um camarada se encontra em perigo, o revolucionário, para saber se o deve salvar o não, não tem que consultar o seu sentimento pessoal, mas só e unicamente o interesse da causa revolucionária. Também lhe é necessário pensar por uma parte na utilidade que representa o seu camarada, por outra parte no dispêndio de forças revolucionárias que exigirá a sua libertação, e agir no sentido para onde pende a balança.
DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM A SOCIEDADE:
XII - Um novo membro, depois de ter feito as suas provas, não em palavras, mas em atos, não pode ser admitido na Associação senão por unanimidade.
XIII - Um revolucionário penetra no mundo do Estado, no mundo das classes, neste mundo que se pretende civilizado, e aí vive pela única razão de que acredita na sua próxima e total destruição. Não é um revolucionário, se ainda alguma coisa prende a este mundo. Não deve recuar, se se trata de quebrar algum laço que o una a este mundo decrépito, ou de destruir alguma instituição ou algum indivíduo. É-lhe necessário odiar igualmente tudo e todos. O pior para ele, é de ter ainda neste mundo laços de parentesco, de amizade ou de amor: não é um revolucionário, se semelhantes laços podem prender o seu braço.
XIV - O revolucionário pode e deve freqüentemente, viver no seio da sociedade, em vista da sua implacável destruição, e dar ilusão de ser totalmente diferente do que realmente é. Um revolucionário deve procurar entradas em toda a parte, na alta sociedade como na classe média, nos comerciantes, no clero, na nobreza, no mundo dos funcionários, dos militares e dos escritores, na polícia secreta e até no palácio imperial.
XV - Toda esta ignóbil sociedade se divide em várias categorias. A primeira compreende aqueles que são para suprimir sem demora. Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados, tendo em conta as suas maleficências relativas e os interesses da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números sejam liquidados antes dos outros.
XVI - A feitura destas listas e o estabelecimento das categorias não devem depender do caráter pernicioso de tal ou tal indivíduo, nem do ódio que inspira aos membros da organização ou do povo. Este caráter pernicioso e este ódio podem mesmo ser úteis numa certa medida para empurrar o povo para a revolta. Deve-se somente ter em conta o grau de utilidade que representa a morte de tal ou tal pessoa para a obra revolucionária. É necessário executar primeiramente os indivíduos mais perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares mais enérgicos e mais inteligentes.
XVII - A segunda categoria compreende aqueles a quem se deixa provisoriamente a vida, e cujos atos sublevarão a indignação do povo e o conduzirão inevitavelmente à revolta.
XVIII - A terceira categoria é composta por um grande número de bestas brutas altamente colocadas, que não brilham nem pela inteligência, nem pela energia, mas que possuem, em razão da sua situação, riquezas, altas relações, de influência e de poder. É necessário explorá-los por todos os meios possíveis, agarrá-los nas nossas redes, fazer-lhes perder o controle, penetrar até o fundo dos seus segredos desonestos, e assim fazer deles os nossos escravos. Desta maneira o seu poder, as suas relações, a sua influência e a sua riqueza serão para nós um tesouro inesgotável e um precioso socorro nos múltiplos empreendimentos.
XIX - A quarta categoria compreende toda a espécie de funcionários ambiciosos, assim como os liberais das diferentes tendências. Pode-se conspirar com estes últimos adotando o seu próprio programa fazendo-lhes acreditar que o seguem cegamente. É necessário tomar bem em mãos, apoderar-se dos seus segredos, comprometê-los a fundo para lhes tornar impossível qualquer retirada, e servir-se deles para provocar perturbações no Estado.
XX - A quinta categoria compreende os doutrinários, os conspiradores, os revolucionários, todas as pessoas que tagarelam nas reuniões ou escrevem no papel. É necessário, sem cessar, empurrá-los, comprometê-los com manifestações práticas e perigosas: o resultado será o desaparecimento do maior número, enquanto que alguns se revelarão como verdadeiros revolucionários.
XXI - A sexta categoria é de uma grande importância: trata-se das mulheres, que convém dividir em três classes. A primeira compreende as mulheres superficiais, sem espírito e sem coração, de que é necessário servir-se da mesma maneira como os homens da terceira e quarta categorias. Incluímos na segunda classe as mulheres inteligentes, apaixonadas, prontas a dedicarem-se, que não estão ainda nas nossas fileiras, porque elas não chegam ainda a uma inteligência revolucionária prática e sem verborréia. É necessário utiliza-las como aos homens de quinta categoria. Vem enfim, as mulheres que estão completamente conosco, quer dizer, que estão totalmente integradas e aceitaram integralmente o nosso programa. Devemos considerá-las como o nosso tesouro mais precioso e a sua ajuda é indispensável em todos os nossos empreendimentos.
DEVERES DA ASSOCIAÇÃO PARA COM O POVO:
XXII - A associação não tem outro objetivo que a emancipação total e a felicidade do povo, quer dizer, da parte da humanidade constrangida a trabalhos duros. Mas, persuadido que esta emancipação e esta felicidade não podem ser atingidas senão através de uma revolução popular que destruirá toda a sociedade, a associação colocará tudo em curso para aumentar e multiplicar os males e os sofrimentos que encolerizarão a paciência do povo e desencadearão a sua revolta massiva.
XXIII - Pelo nome de "Revolução Popular" a nossa sociedade não entende um movimento de tipo clássico ocidental, que não atinge em nenhum caso nem propriedade privada, nem a ordem social transmitida pela dita civilização e a pretensa moralidade, e que se limitou até agora a suprimir um sistema político para o substituir por um outro e fundar um Estado dito revolucionário. Só pode trazer a salvação ao povo uma revolução que condene absolutamente toda a idéia de Estado perturbe completamente na Rússia as tradições, as instituições e as classes sociais do Estado.
XXIV - Neste objetivo a Associação não tem de modo algum a intenção de impor ao povo qualquer organização vinda de cima. A futura organização sairá, sem dúvida, do movimento da vida popular, mas isto será obra das gerações vindouras. A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal.
XXV - Também é necessário, aproximar-nos do povo, procurar, antes de tudo, a aliança com estes elementos da vida popular, que, desde a fundação do Estado moscovita, são, sem cessar, educados contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado: nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes, e numa palavra, contra todos os exploradores do povo. É necessário aliarmo-nos com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários.
XXVI - Reunir todos estes elementos para fazer uma força única, invencível e capaz de destruir tudo: tal é a razão de ser de toda a nossa organização, de toda a nossa conspiração, de todo o nosso empreendimento.
domingo, 5 de outubro de 2014
O gringo, novamente
Imagino que 1 ou 2 pessoas tenham lido o texto sobre o Gramsci. Pois bem, para os valentes que leram e acharam que é muita teoria da conspiração, registro de vídeo do perfil do governador pinóquio no Facebook, antes das eleições. Alguém reconhece a foto ao fundo?
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Eu vou morrer?
Excelente TED Talk. Só para quem gosta de pensar. Ele é um socorrista respondendo à pergunta característica dos pacientes gravíssimos: "eu vou morrer?". Legendas em inglês e espanhol. Se nenhuma das duas te serve, ótima hora para começar a estudar.
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