Primeiro: o uso pouco criterioso dos recurso de tais bancos (BNDES mais notoriamente). Pouca gente entende por que o BNDES empresta $1 bilhão para investimentos em infraestrutura lá em Cuba, por exemplo. De fato, não há nada para se entender. Ao menos, do ponto de vista do interesse do povo brasileiro. Mas se ficarmos em terras brasileiras, veremos que os maiores beneficiados (assim como no caso do citado porto, foi a Odebrecht) são grandes empresas que não deveriam estar recebendo dinheiro "barato" do governo, pois elas já têm alta capacidade de financiarem seus próprios negócios. Já seria motivo suficiente para mudar o rumo do uso dos bancos públicos. Mas temos outro motivo ainda...
Segundo: o crescente endividamento de tais bancos com o Tesouro Nacional. O Tesouro, pra quem não sabe, é o caixa do Brasil. É o dinheiro público. Eis que o atual governo tem seguido uma linha de atuação muito interessante, algo que talvez possa ser enquadrado naquilo que os críticos têm chamado de contabilidade criativa. O governo sabe que não há recursos suficientes para investir em desenvolvimento e em benefícios sociais simultaneamente e em larga escala. A conta não fecha, simples assim. Mas as benesses sociais são carro-chefe do governo, não podem ser cortadas. O problema é que a falta de condições estruturais exige uma intervenção severa em nossa economia, ainda mais na visão desenvolvimentista do governo. Ou seja, é preciso fomentar a economia na tentativa de melhorar o atual desempenho pífio. Também não é ideia do timoneiro cortar tais gastos. Qual foi a solução encontrada? A mesma que o pobre não muito inteligente geralmente usa: quando o dinheio estiver curto, em vez de reduzir gastos, vamos pedir um empréstimo. Quem sabe, até no cartão de crédito. É mais ou menos assim que o governo tem agido. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida do BNDES com o Tesouro nos últimos anos. O montante da dívida já chega a estratosféricos 10% do PIB.
E por que o governo age assim? Porque não tem seriedade, porque faz uma política populista e irresponsável, pouco se importando com o custo que isso pode ter no futuro do país. Uma alternativa para manter o nível de gastos exorbitantes seria o aumento da arrecadação. Mas aí seria preciso aumentar impostos. Povo algum gosta de aumento de imposto, então vamos "inventar" dinheiro de uma maneira que o povo não perceba, pois eles nem sabem o que é dívida pública. A explicação oficial provavelmente é a de que logo os investimentos darão o retorno esperado e o desenvolvimento da economia pagará a conta. Seria aceitável, fosse verdadeiro. O Brasil já viveu outros períodos da lógica desenvolvimentista e todos resultaram no mesmo: enorme dívida pública e prejuízos ao crescimento da economia.
Se uma pessoa usasse a mesma solução, seria mais ou menos como ela pegar dinheiro do bolso direito e emprestar pro esquerdo. E ainda dizer: "tenho R$10 em dinheiro vivo no esquerdo e mais um crédito de R$10 no direito". O governo tem os meios de fazer isso, mas é claro que não pode inventar riqueza, assim como qualquer um de nós. Uma hora a conta chega, e aí o país vai buscar crédito onde houver, ou seja, nos demonizados bancos privados, que não cobrarão os juros amigos dos bancos públicos. Ou no FMI, que tem juros amigos mas é ainda mais demonizado. O que um governo responsável que venha a substituir o atual faria? Acabaria com os empréstimos do Tesouro e iria pagando a conta dos bancos até ter um débito aceitável. O custo disso? Dificuldade de financiar as benesses sociais ou os investimentos, tendo que optar em reduzir um ou outro, ou ambos. É assim que funciona com nossas contas também: se estou atolado em dívidas, todos sabemos qual é a solução, não é mesmo?

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