sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Antibiblioteca

Por mais que a ideia me agrade, jamais chegarei nos 30 mil livros da biblioteca do falecido -em fevereiro- Umberto Eco. Nem quero, na verdade(também não teria casa pra guardar isso). Obviamente que não penso em termos de número, mas de 2 a 3 mil acho uma biblioteca muito respeitável. Chegarei lá, sem muita sombra de dúvida. 
Gostei muito e vou procurar o livro do Taleb (trecho abaixo), porque esse sentimento acumulador de livros é algo tão óbvio pra quem os tem que é difícil de explicar. Fazia tempo que ninguém me perguntava "mas tu já leu todos esses livros?", mas a resposta é pra mim sempre óbvia: claro que não! Semana passada foi a última vez que me perguntaram. 
Ninguém que tenha uma quantidade um pouco maior de livros (sei lá, de 50 pra cima) consegue ler tudo o que tem. A velocidade entre a compra e a leitura geralmente é incompatível. Minha última compra, por exemplo, foram uns 11. Se estivesse com tempo pra ler tais coisas agora (não estou, tenho outros materiais que preciso ler agora), demoraria pelo menos uns 2 meses. E dificilmente vou demorar mais de 2 meses para comprar mais alguma coisa (o livro do Taleb, por exemplo). E, é claro, a lista de não lidos não para de crescer. Nem irá parar. 
Gostaria de estar com mais tempo para ter uma leitura "não obrigatória". Tenho muitos livros que estou doido pra ler mas não tenho a menor condição de fazê-lo agora. Theodore Dalrymple, Harold Bloom, Malcom Gladwell, Dostoiévski, Cervantes, Homero, Victor Hugo, Roger Scrutton, Érico Veríssimo, Tolstói e mais um monte de gente, uns conhecidos e outros não,  está na fila. Mas não tenho pressa, uma hora eu chego neles. Ou não.
Pra terminar, um filme-entrevista com o falecido intelectual. Aliás, prestem atenção: isto é um intelectual! Não qualquer abobado com amigos na mídia que leu alguns bons livros(ou muitos). Pra ser chamado de Intelectual precisa um tanto mais que isso. No final desta primeira parte tem uma tomada onde ele cruza os diversos cômodos da casa que a biblioteca ocupava. É de escorrer uma gota de suor másculo no canto do olho:

“Umberto Eco pertence a um pequeno grupo de acadêmicos que são enciclopédicos, perceptivos e nada entediantes. Ele é dono de uma biblioteca pessoal enorme (contendo 30 mil livros) e divide os visitantes em duas categorias: aqueles que reagem dizendo, ‘uau! Signore professore dottore Eco, que biblioteca você tem! Quantos desses livros você já leu?’ e aqueles – uma pequena minoria – que entendem que uma biblioteca particular não serve para inflar o ego, mas é uma ferramenta de pesquisa. Os livros já lidos são muito menos valiosos que os não lidos. A biblioteca deveria conter o máximo do que você não conhece conforme seus recursos financeiros, taxas de hipoteca e o atualmente inflexível mercado imobiliário permitem. Você vai acumular mais conhecimento e mais livros conforme envelhece e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras olharão para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você sabe, maiores são as fileiras de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de ‘anti-biblioteca’.”

Nassim Nicholas Taleb, em A Lógica do Cisne Negro.




quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os Gritos do Silêncio

Esta semana morreu Sydney Schanberg, o jornalista que acompanhou a guerra no Camboja e a tomada do poder pelos comunistas do Khmer Vermelho na década de 70. Khmer Vermelho era o partido comunista do Camboja, liderado por um dos maiores filhos da puta que o mundo já viu, Pol Pot. 

Da mesma maneira ocorrida em todos os países dominados pelo comunismo, lá também havia um exército de tarados assassinos torturadores que foram responsáveis, na melhor das hipóteses, por quase 2 milhões de mortos. Como bons discípulos de Mao(este, sim, concorrente forte ao posto de maior fdp da humanidade), mudaram a língua, os costumes, doutrinaram crianças desde muito cedo e tornaram-nas assassinas. Muita gente morreu de fome, o estudo era proibido (a menos que fosse da cartilha do partido) e a culpa do atraso do país era, claro, dos países desenvolvidos que exploraram os coitados(acho que já ouvi isso antes). De fato, é dito que a maioria dos professores foi assassinada. Gente instruída é um perigo pra revolução! Embora, claro, os líderes geralmente sejam muito bem educados. Pol Pot estudou em Paris. 

Monges budistas foram perseguidos e mortos(60%), e o budismo foi declarado "religião reacionária". Imagens de Buda e templos foram destruídos, depredados ou utilizados como prisões ou depósitos.Um ministro disse "o budismo está morto, agora o terreno está limpo para as fundações de uma cultura revolucionária". Quando o barbudo vagabundo aquele disse que a religião era o ópio do povo, iniciou-se a guerra contra os valores das sociedades. Se os vermelhos seguem pedindo um país laico, mesmo fora da administração pública, não é sem motivo. 

Estrangeiros também foram perseguidos e mortos, especialmente vietnamitas. Ocidentais deveriam ser queimados para não deixar evidências de suas execuções. Idosos, crianças e deficientes físicos morriam porque não resistiam aos trabalhos forçados (ou eram executados por não conseguirem trabalhar).

Quando a gente olha pras atrocidades do comunismo, sempre fica a pergunta: por que se fala tão pouco no assunto? De muitas maneiras, o comunismo foi pior que o nazismo. Quanto tempo perdido, quanto prejuízo para um povo esses caras foram capazes de causar? Aqui ao lado, na Venezuela, estamos vendo situação parecida. No Brasil, quanto dessas ações têm sido executadas ou tentadas? Óbvio que não estou pondo no mesmo nível, são coisas muito distintas. Mas os princípios estão aí para quem quiser ver.

Os Gritos do Silêncio é um filme de 1984, narrando a história de Schanberg no Camboja. É um tanto irônico que um liberal(esquerdista) tenha entrado para a história registrando os massacres comunistas. Algumas declarações dele à época mostram a torta lógica esquerdista, através da qual ele atribui a matança aos EUA, por conta da Guerra do Vietnã, quase que inocentando o Khmer Vermelho. Talvez eu venha a pesquisar para descobrir o que mudou no seu pensamento.

Aproveitando que faz parte da minha coleção, e como forma de homenagem, assisti ontem. Abaixo o trailer e algumas fotos reais da obra dos comunistas.







Crianças do Khmer Vermelho

Mais crianças


Corpos encontrados numa prisão
Campo de trabalhos forçados
Sydney Schanberg


Os Gritos do Silêncio

Esta semana morreu Sydney Schanberg, o jornalista que acompanhou a guerra no Camboja e a tomada do poder pelos comunistas do Khmer Vermelho na década de 70. Khmer Vermelho era o partido comunista do Camboja, liderado por um dos maiores filhos da puta que o mundo já viu, Pol Pot. 

Da mesma maneira ocorrida em todos os países dominados pelo comunismo, lá também havia um exército de tarados assassinos torturadores que foram responsáveis, na melhor das hipóteses, por quase 2 milhões de mortos. Como bons discípulos de Mao(este, sim, concorrente forte ao posto de maior fdp da humanidade), mudaram a língua, os costumes, doutrinaram crianças desde muito cedo e tornaram-nas assassinas. Muita gente morreu de fome, o estudo era proibido (a menos que fosse da cartilha do partido) e a culpa do atraso do país era, claro, dos países desenvolvidos que exploraram os coitados(acho que já ouvi isso antes). De fato, é dito que a maioria dos professores foi assassinada. Gente instruída é um perigo pra revolução! Embora, claro, os líderes geralmente sejam muito bem educados. Pol Pot estudou em Paris. 

Monges budistas foram perseguidos e mortos(60%), e o budismo foi declarado "religião reacionária". Imagens de Buda e templos foram destruídos, depredados ou utilizados como prisões ou depósitos.Um ministro disse "o budismo está morto, agora o terreno está limpo para as fundações de uma cultura revolucionária". Quando o barbudo vagabundo aquele disse que a religião era o ópio do povo, iniciou-se a guerra contra os valores das sociedades. Se os vermelhos seguem pedindo um país laico, mesmo fora da administração pública, não é sem motivo. 

Estrangeiros também foram perseguidos e mortos, especialmente vietnamitas. Ocidentais deveriam ser queimados para não deixar evidências de suas execuções. Idosos, crianças e deficientes físicos morriam porque não resistiam aos trabalhos forçados (ou eram executados por não conseguirem trabalhar).

Quando a gente olha pras atrocidades do comunismo, sempre fica a pergunta: por que se fala tão pouco no assunto? De muitas maneiras, o comunismo foi pior que o nazismo. Quanto tempo perdido, quanto prejuízo para um povo esses caras foram capazes de causar? Aqui ao lado, na Venezuela, estamos vendo situação parecida. No Brasil, quanto dessas ações têm sido executadas ou tentadas? Óbvio que não estou pondo no mesmo nível, são coisas muito distintas. Mas os princípios estão aí para quem quiser ver.

Os Gritos do Silêncio é um filme de 1984, narrando a história de Schanberg no Camboja. Aproveitando que faz parte da minha coleção, e como forma de homenagem, assisti ontem. Abaixo o trailer e algumas fotos reais da obra dos comunistas.







Crianças do Khmer Vermelho

Mais crianças


Corpos encontrados numa prisão
Campo de trabalhos forçados
Sydney Schanberg


terça-feira, 21 de junho de 2016

O Capote

Trechinho d'O Capote, do pai da literatura russa (segundo o mais fodástico deles, Dostoiévski: 'Todos nós viemos de O Capote'):

Mas Akáki Akákievicth não respondia uma palavra, como se não houvesse ninguém diante dele; em meio a todas essas amolações, não cometia um só erro no seu trabalho. Só mesmo quando a brincadeira ia além do insuportável, quando alguém lhe empurrava o braço perturbando-lhe o trabalho, é que ele falava: 'Deixem-me em paz. Por que me ofendem?' E algo estranho fazia-se ouvir em suas palavras, em sua voz. E ouvia-se algo que predispunha tanto para a compaixão que um jovem, novato no serviço, que a exemplo dos colegas ia-se permitir zombar dele, deteve-se de repente como que comovido e desde então tudo lhe pareceu mudar, assumir um novo aspecto. Algo como uma força sobrenatural o afastava dos colegas que há pouco conhecera e tomara por pessoas decentes e civilizadas; Depois, vinha-lhe à imaginação nos momentos mais alegres a imagem daquele funcionário baixinho, de fronte calva, com suas palavras penetrantes: 'Deixem-me em paz. Por que me ofendem?' Nestas palavras penetrantes, outras palavras ecoavam: 'Eu sou teu irmão'. O pobre rapaz levava as mãos ao rosto. E mais tarde, muitas vezes em sua vida ele estremeceria ao perceber o quanto há de desumano no ser humano, quanta grosseria feroz existe às escondidas num ambiente culto, requintado e, meu Deus!, até naquelas pessoas que a sociedade reconhece como nobres e honradas.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ressentidos

O Brasil é um país deprimente. Todo mundo que resolve falar alguma bobagem e é amigo do rei (ou dos príncipes, vá lá) é chamado de intelectual. Especialmente se for de esquerda (casualmente, a maioria dos idiotas que aceita ser chamado de intelectual é de esquerda - é uma maneira de dar valor a quem não tem, uma das especialidades esquerdistas).  Apesar disso, temos alguns pensadores por aqui.
Luiz Felipe Pondé é um deles. Talvez não seja um pensador daqueles com P maiúsculo, mas com certeza está muitos níveis acima do Jô Soares (que durante muito tempo foi chamado de intelectual; embora seja um cara bastante culto, intelectual é coisa muito distinta). À primeira vista, ele é antipático, arrogante e um tanto afetado (é casado, mas não me convence). Num segundo momento, talvez siga sendo isso tudo, além de um cara com coragem suficiente pra dizer algumas verdades doloridas (a verdade SEMPRE é dolorida) e com bastante estofo.
O livro A Era do Ressentimento é uma ilha no oceano imbecil do politicamente correto brasileiro. Livrinho duro de engolir pra maioria esmagadora. Aliás, a maioria esmagadora é analfabeta. Aqueles que não são, são quase e tão preguiçosos e reativos que raramente pegam um livro. Além de analfabeta, a maioria esmagadora é formada por covardes como ele bem diz. 
É uma coleção de textos curtos excelentes. Uma porrada no estômago, um tiro à queima roupa, uma paulada na cabeça dos mais sensíveis. Fique aí com um aperitivo:










quarta-feira, 16 de março de 2016

Mais uma do Velho Safado

"Se vai tentar
siga em frente.
Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.
Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...
A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.
Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena."

Henry Chinaski, quero dizer....tu sabe quem.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Gente de açúcar

(Achei o vídeo completo, sabia que existia) Resume perfeitamente o que penso. Gosto muito deste cara, um dos pouquíssimos que ainda diz as coisas como eles devem ser ditas:




Chris Kyle

Vi esses dias o filme Sniper Americano. Sim, sou meio atrasado pra algumas coisas. Puta filme, puta história. O livro chegou hoje, logo será aberto. (Comecei a escrever isso semanas atrás, comecei a ler o livro)

Muitas vezes sou mal interpretado (ou me expresso mal) quando falo de filmes. Ok, sei que não é muito comum assistir filmes fora do padrão hollywood-mcdonalds (de certa forma, as novelas da Globo seriam os equivalentes nacionais). Esses enlatados são aqueles filmes com pouca história, muito efeito especial, superficialidade, cortes de câmera a cada 10s e cerca de 2h de vida jogada fora, sem nada a acrescentar. Ok, não é proibido ver filme assim. Me obriguei a ver filmes fora desse padrão, partindo pros latinos, europeus e asiáticos. Foi a fórceps, mas foi. Cinema, pra mim, é arte. E arte tem que tocar. Tem que criar conexão. Se o filme não me toca, não me coloca pra pensar, não me faz sentir algo, é uma bosta. Não me venham com "mas é bem feito". O supermercado tá cheio de produtos bem feitos. Filme não é isso (ao menos pra mim). Sniper Americano definitivamente não é um produto bem feito. É arte. E sim, Hollywood tem centenas de obras de arte.

Todo mundo já sabe que é baseado na história real de Chris Kyle, sniper dos SEALS da marinha americana que combateu no Iraque por 10 anos e ganhou a alcunha de "A Lenda", por ter mais mortes confirmadas que qualquer outro na história (em verdade, por ter salvado muitos soldados americanos com seus disparos).  Um homem íntegro, com enorme senso de dever, com aquela índole de protetor dos demais e também, de certa forma, um cowboy comum como qualquer outro. Claro, além de um talento enorme para a função.

Um cara que sentiu um dever inescapável de ajudar seus compatriotas que estavam morrendo nos campos de batalha. Sacrificou muito da vida pessoal por conta disso. Mas não conseguia viver sua vidinha comum vendo outros soldados morrendo. Pior, sabendo que se estivesse lá, ele poderia ter salvado muitos deles. De certa forma, na minha visão é isso que define um homem de verdade: um senso de dever (não como um escravo ou um acéfalo) profundo, impossível de ser mascarado. Sabendo que ele deveria estar lá, não conseguiria mais fazer outra coisa.

Esse dever é algo extremamente pessoal, que é sentido, não é racionalizado. Pode ser uma missão de vida ou mesmo uma situação eventual. Pra mim, pode ser um único momento em toda a tua vida, no qual entre viver e fazer o que é certo (o que DEVE ser feito), a escolha é morrer. Como a máxima samurai: "entre a vida e a morte, sempre a morte". Também chamam isso de integridade.


Outro fato que certamente choca os mais sensíveis (ou ingênuos, ou idealistas, ou...etc) são as mortes. De crianças, inclusive, O fato é que quando se parte para a 'guerra' - no Iraque ou num assalto, tanto faz - as escolhas já foram tomadas. Nenhum assaltante, estuprador, terrorista, etc, vai mudar de opinião no meio de um confronto. A única coisa que vai evitar que cheguem a seu objetivo é uma reação contrária. Matar o menino (no livro, quem morre é a mãe, e está acompanhada de uma menina; não fica claro se a granada explode e ela morre também, acho que aí ficou por conta de Hollywood) deve ter sido duro e parece algo abominável. Sim, é abominável. Mas para quem estava lá, era a única saída. Na guerra só existem duas verdades: ou se vive, ou se morre. E ninguém pretende morrer,

Outro ponto que me tocou foi a relação do casal. A mulher, como todas, muito ansiosa, curiosa e preocupada com ele. Chega a perguntar se ele já havia matado alguém. Sinceramente, só uma mulher ou um abobado pra fazer uma pergunta dessas. Mas é comum, elas perguntam coisas assim. Duvido que alguma mulher de samurai, de cavalheiro medieval, de viking, de espartano, fizesse uma pergunta dessas. Elas compreendiam que aquilo não fazia parte do mundo delas, nem deveria. Não é só uma questão de sexo, até porque existem soldados femininas. Como é que se assume uma morte para quem não tem a menor ideia do que seja matar? As pessoas vivem em muitos mundos diferentes. Alguns a gente pode dividir, outros são bem particulares.

Entra o conflito entre a missão e a vida familiar. A mulher dele foi muito guerreira. Em verdade, não teve escolha. Após toda a tormenta, recuperou o marido e parceiro para perdê-lo por conta de um soldado que ele tentou ajudar.


O funeral dele foi algo incrível .Toda  a estrutura, a quantidade de pessoas que acompanharam a passagem do cortejo fúnebre, o velório no estádio dos Dallas Cowboys...de fato, teríamos que passar por um sofrimento massivo, que afetasse o país de um canto a outro. Mas não por conta-gotas; um sofrimento aos milhares de litros. Talvez assim pudéssemos chegar à profundidade de sentimento e reconhecimento que os americanos têm por seus heróis. O país parou por conta da morte de um único soldado. Uma procissão por 360 km, com milhares de pessoas prestando homenagem. Mesmo os veículos que seguiam na pista contrária, ao cruzar pela procissão, paravam para prestar o seu respeito. É algo totalmente inimaginável para o nosso país. Meu mais profundo respeito pelos americanos. Sem dúvida, é um povo valoroso.

Abaixo, vídeo do cortejo fúnebre do herói Chris "A Lenda" Kyle. É tocante, daquelas coisas que tocam lá dentro, nas tripas:


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Buk já sabia

A primeira vez que li Bukowski, odiei. Era A Mulher Mais Linda da Cidade. Eu era muito novo e, definitivamente, não é o livro mais indicado pra começar Bukowski. A menos que tu seja tão maluco quanto ele.

Sempre detestei os revoltadinhos que se acham 'OS' fãs de Bukowski. Sempre me pareceu que eles só querem encontrar uma boa desculpa pra viverem chapados, bêbados ou pra posarem de 'malditos'. Em geral, têm a profundidade de uma bacia. São os outsiders mais inside que já vi.
Sim, o velho safado era bem maluco, bêbado inveterado e totalmente à margem (mentira, nem ele acreditava nisso - mas chegava perto).

Todo esse blá-blá-blá pra dizer que o Buk era foda, escrevia muito, falava de muita coisa importante e era, com toda sua coleção de defeitos, um cara com coração. E que, arrumando meus livros, parei pra ler um pouco e achei essa pérola. É um trechinho de Um bate-papo tranquilo, que faz parte do Fabulário geral do delírio cotidiano.
Como se vê, nada mudou:

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-você fala como um autêntico reacionário.
-não tenho partido, sou mero observador.
-ainda bem que nem todos seguem o teu exemplo, senão não ia se chegar a parte alguma.
-e aonde foi que chegamos?
-ué, e pensa que eu sei?
-eu também não. só sei que há uma porção de revolucionários por aí que são umas verdadeiras bestas e, o que é pior, CHATOS, mas chatos a mais não poder. cara, eu não quero dizer que não se deve ajudar os pobres, educar quem nunca teve instrução, hospitalizar quem vive doente e por aí afora. o que eu quero dizer é que a gente está tratando esses revolucionários como se fossem santos, quando têm muitos que não passam de pobres-diabos, com problemas de espinha na pele, abandonados pelas mulheres e com essa porra de simbolozinhos da Paz pendurados por uma corda no pescoço. há vários que são meros oportunistas e que fariam melhor em ir trabalhar na Fábrica Ford. se é que conseguiriam pistolão pra entrar lá. não quero saber de mudar de governo e ir de mal a pior - que é o que se tem feito em cada eleição.
- ainda acho que uma revolução iria acabar com muita bandalheira que existe por aí
- ganhando ou perdendo, vai acabar mesmo. e com uma porção de coisas boas e ruins. a história da humanidade é muito lenta. eu, por mim, prefiro assistir de camarote.
-pra poder observar melhor lá de cima.
-exatamente. toma outra cerveja.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Bobinhos

Não é o único deste tipo, mas vi o vídeo abaixo no facebook tempos atrás. O que me impressiona é como as pessoas ficam comovidas e aceitam plenamente a motivação do "experimento": mostrar que pessoas que têm mais são egoístas, pessoas que têm menos são solidárias. Eis o vídeo:



Já havia dito que, primeiramente, eu jamais daria minha comida pra um guri todo tatuado, com roupas caras, cheio de acessórios e folgado, que sequer pede licença e já vai dizendo que está com fome e quer um pouco da tua comida. É óbvio que qualquer um percebe que ele poderia comprar a própria comida. 
Em segundo lugar, qual o mérito do mendigo? Ele passa o dia todo fazendo coisa nenhuma, algum desconhecido bobo dá uma pizza inteira pra ele e assim a coisa vai. Aí o mesmo guri folgado pede e ganha a comida daquele que, teoricamente, deveria dividir menos, já que ele mesmo não tem nada. Minha opinião? É muito mais fácil dar aquilo que não te custou nada do que dar algo pelo qual tu trabalhou; é muito mais fácil dar algo que é fácil conseguir (pessoas sempre dão comida) que algo difícil de repor. Gostaria de ver outro vídeo com o mesmo mendigo, mas que alguém pedisse o carrinho de supermercado dele. Aí eu iria ver a solidariedade de verdade (ou não, que é o que imagino).

É fácil notar que há cada vez mais uma corrente de pensamento que mostra o ser humano como algo ruim, perigoso para os animais, para o meio ambiente, perigoso inclusive para outros humanos (estes, seriam quase anjos: solidários, compreensivos, preocupados com tudo e com todos). Procure no facebook vídeos mostrando pessoas fazendo coisas boas e grandiosas e compare com o número de vídeos mostrando gente fazendo coisas ruins. Procure vídeos mostrando que animais são melhores que pessoas (e atribuindo aos animais qualidades - incoerência máxima - características dos seres humanos). Enfim, acho isso tudo muito bobo. E acho que grande parte das pessoas que divulgam tais ideias são bem diferentes da imagem que querem passar. 
Eis que o folgado tatuado do vídeo é um tal de Sam Pepper. Vive dos vídeos de mau gosto que faz para o youtube: pegadinhas idiotas, abuso de mulheres (beijando à força, passando a mão na bunda, pegando na mão das mulheres quando elas estão com os namorados, algemando ou laçando para condicionar a soltura a um beijo na boca), brincadeiras ao estilo Jack Ass. No momento, o guri bunda-mole está respondendo a acusações de assédio e violência sexual. Imagino que ele não fez nenhum vídeo sobre o assunto...

Concluindo? Há uma ingenuidade enorme no ar, fruto da falta de reflexão cada vez maior que me parece ter tomado conta especialmente da internet. Qualquer um faz circular uma ideia aparentemente bacana, que acaba virando uma verdade. As pessoas não pensam sobre a questão, não buscam informações pra confirmar a veracidade dos fatos, não procuram saber quem é o mensageiro. Mas compartilham imediatamente; só custa um clique.

Te liga, bico de luz. Na próxima vez que assistir ao vídeo e ficar emocionado, lembre que o guri com auréola de anjinho poderia estar agarrando tua irmã à força. 

Santa estupidez, Batman!

É impressionante a absoluta falta de qualidade da nossa imprensa. Vejo no portal da RBS que um brigadiano teria matado um frentista que ajudava outro brigadiano que estava ferido por conta de uma briga no posto de combustível. O PM teria confundido o frentista com o agressor e atirado. Mas a narrativa é tão absurda que a pessoa que a fez só tem duas opções: ou estava dormindo/drogada, ou é muito burra. Dizem que o PM em horário de folga teria rendido, com a ajuda do frentista, a mulher. Ao chegar a viatura, o policial que estava trabalhando teria confundido o frentista como agressor(?) e atirado. O que acontece? Nossa população, que merece os vagabundos que tem, senta o sarrafo nos policiais. Despreparado é elogio. Já lembram do engenheiro que morreu há pouco. Mais uma prova do total despreparo (e desequilíbrio mental, logicamente).
Aí, como parto do princípio que a maioria dos policiais não é psicopata, resolvo ver no Correio do Povo a mesma notícia. Tudo muda, desde os detalhes da briga entre um casal e o brigadiano de folga, até o desfecho. Descubro que o frentista, aparentemente, ajudava o policial ferido. Juntou a arma e resolveu perseguir o casal. Quando a viatura chegou, depararam com um indivíduo armado entrando na área do posto, rendendo uma mulher. Era o frentista, que recebeu ordem para largar a arma. Não largou (talvez por nervosismo), levou um tiro na cabeça.
Será que o Clic vai republicar a matéria pedindo desculpas pelo erro grosseiro? Claro que não. O estrago na imagem da Brigada, mais uma vez, já estará feito. E assim a gente segue, caminhando para a Idade da Pedra.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Berço esplêndido

O Brasil é um país muito doente. Engraçado que desde sempre eu vejo isso, mas parece que pouca gente se dá conta. Ou a maioria sabe, mas prefere fingir não saber.

Essa semana tivemos duas notícias envolvendo taxistas em Porto Alegre. Numa delas, um bando de taxistas enfurecidos tentava invadir um estacionamento após um funcionário do local solicitar a retirada de um táxi que obstruía a entrada. Barras de ferro, agressões e vandalismo. Light, perto da outra. Três taxistas teriam matado a tiros outro motorista. Possivelmente por discussão de trânsito. Sinceramente, duvido que tenha sido isso, mas não faz diferença. Taxistas são, basicamente, funcionários públicos. Em Porto Alegre, no entanto, não passam de uma associação de criminosos. A cidade fica refém e ninguém faz nada. Em qualquer lugar minimamente civilizado, as concessões seriam cassadas e os responsáveis responderiam judicialmente. Por aqui, teremos sorte se algo acontecer aos motoristas; aos concessionários, não esperem punição alguma. Parece Taxi Driver, mas sem a loucura e motivação (muito menos o talento do De Niro) de Travis Bickle. You talkin to me?

Na zona sul da cidade, um engenheiro supostamente embriagado evitou uma abordagem da Brigada Militar na madrugada, após cruzar um sinal vermelho em alta velocidade. Fugiu e teria tentado furar uma barreira montada alguns quilômetros adiante. Num provável erro de atuação, um policial atirou e matou o motorista, sob a alegação de que ele teria sido atropelado caso não atirasse. Ok, podemos e devemos questionar a ação policial. É provável que tenham errado? É. Mas ao engenheiro, que fugia, foi dado o papel exclusivo de vítima. Em que lugar do mundo as pessoas fogem da polícia, tentam furar uma barreira policial e todo mundo acha isso normal? Deve ser pelo fato de serem incomuns as notícias onde um motorista embriagado atropela e mata várias pessoas, ou colide contra outro veículo e mata ou incapacita alguém. Por isso ninguém condena o motorista fujão...
Pra piorar, a Zero Hora coloca a machete dizendo que o engenheiro foi assassinado. Vou ao Houaiss e vejo que talvez a palavra assassinato não esteja tão mal colocada. Mas será que só eu tenho a impressão de que chamar o policial de assassino é o mesmo que dizer que ele matou porque quis? Quer dizer, é um psicopata, segundo a manchete. E burro, porque com tanta gente pra matar, tanto vagabundo dando sopa, o PM vai ter tara de matar engenheiro de família com grana. Acho que não ocorreu exatamente assim...

Todo mundo sabe que as crianças aprendem cada vez menos, que a educação está debaixo do fundo do poço, que são basicamente analfabetos. Ninguém parece dar bola. Claro, a menos que apreça alguém com câmera e microfone. Aí todos ficam indignados. Mas vá a uma escola e veja como é quando um professor ousa reprovar um aluno. Ou simplesmente chamar-lhe atenção para um mau comportamento.

A lista é quase infinita; dá pra seguir exemplificando comportamentos hipócritas, imorais, absurdos...Todo mundo vê, mas prefere fingir que nada acontece.

Deitado eternamente em berço esplêndido...

Espero que isso não tenha sido uma praga. Até agora, tem sido.