sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Antibiblioteca

Por mais que a ideia me agrade, jamais chegarei nos 30 mil livros da biblioteca do falecido -em fevereiro- Umberto Eco. Nem quero, na verdade(também não teria casa pra guardar isso). Obviamente que não penso em termos de número, mas de 2 a 3 mil acho uma biblioteca muito respeitável. Chegarei lá, sem muita sombra de dúvida. 
Gostei muito e vou procurar o livro do Taleb (trecho abaixo), porque esse sentimento acumulador de livros é algo tão óbvio pra quem os tem que é difícil de explicar. Fazia tempo que ninguém me perguntava "mas tu já leu todos esses livros?", mas a resposta é pra mim sempre óbvia: claro que não! Semana passada foi a última vez que me perguntaram. 
Ninguém que tenha uma quantidade um pouco maior de livros (sei lá, de 50 pra cima) consegue ler tudo o que tem. A velocidade entre a compra e a leitura geralmente é incompatível. Minha última compra, por exemplo, foram uns 11. Se estivesse com tempo pra ler tais coisas agora (não estou, tenho outros materiais que preciso ler agora), demoraria pelo menos uns 2 meses. E dificilmente vou demorar mais de 2 meses para comprar mais alguma coisa (o livro do Taleb, por exemplo). E, é claro, a lista de não lidos não para de crescer. Nem irá parar. 
Gostaria de estar com mais tempo para ter uma leitura "não obrigatória". Tenho muitos livros que estou doido pra ler mas não tenho a menor condição de fazê-lo agora. Theodore Dalrymple, Harold Bloom, Malcom Gladwell, Dostoiévski, Cervantes, Homero, Victor Hugo, Roger Scrutton, Érico Veríssimo, Tolstói e mais um monte de gente, uns conhecidos e outros não,  está na fila. Mas não tenho pressa, uma hora eu chego neles. Ou não.
Pra terminar, um filme-entrevista com o falecido intelectual. Aliás, prestem atenção: isto é um intelectual! Não qualquer abobado com amigos na mídia que leu alguns bons livros(ou muitos). Pra ser chamado de Intelectual precisa um tanto mais que isso. No final desta primeira parte tem uma tomada onde ele cruza os diversos cômodos da casa que a biblioteca ocupava. É de escorrer uma gota de suor másculo no canto do olho:

“Umberto Eco pertence a um pequeno grupo de acadêmicos que são enciclopédicos, perceptivos e nada entediantes. Ele é dono de uma biblioteca pessoal enorme (contendo 30 mil livros) e divide os visitantes em duas categorias: aqueles que reagem dizendo, ‘uau! Signore professore dottore Eco, que biblioteca você tem! Quantos desses livros você já leu?’ e aqueles – uma pequena minoria – que entendem que uma biblioteca particular não serve para inflar o ego, mas é uma ferramenta de pesquisa. Os livros já lidos são muito menos valiosos que os não lidos. A biblioteca deveria conter o máximo do que você não conhece conforme seus recursos financeiros, taxas de hipoteca e o atualmente inflexível mercado imobiliário permitem. Você vai acumular mais conhecimento e mais livros conforme envelhece e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras olharão para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você sabe, maiores são as fileiras de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de ‘anti-biblioteca’.”

Nassim Nicholas Taleb, em A Lógica do Cisne Negro.




Nenhum comentário:

Postar um comentário