sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Tinha que ser um gringo

De fato, não acredito em uma teoria da conspiração tão ampla e milimetricamente planejada como fazem alguns (tipo o maluco do Olavo de Carvalho). Em geral, as pessoas caminham para onde bem querem, embora sejam influenciadas na caminhada. O que se faz, na maioria das vezes e desde sempre, é alcançar o fósforo pra quem já queria mesmo atear fogo. Talvez eu diga isso só como conforto, pra não ficar tão assustado. No entanto, é bastante difícil não associar os acontecimentos atuais às ideias do comunista italiano Antonio Gramsci. Os esquerdinhas que nunca leram vão dizer que não tem nada a ver, obviamente. Por isso mesmo, resolvi fazer citações tiradas do site do Partido comunista Brasileiro, pra não dizerem que é coisa da direita. Pra quem não sabe, Gramsci fundou o partido comunista italiano e é o ideólogo fundamental de todos os partidos de esquerda. A "Hegemonia Cultural" é o grande legado dele para os partidos que almejam o poder; suas teorias foram criadas basicamente no período em que esteve preso pelo regime fascista (talvez venha daí a crença esquerdista de que eles lutam pela liberdade, quando na verdade eles lutavam era pelo poder, e a mania de atribuírem a todos que discordam deles a qualidade de "fascistas"). São suas "Memórias do Cárcere". Pois bem, sendo extremamente simplista, Gramsci observou que a tomada do poder pela força não era mais algo viável: além de o próprio processo ser por demais desgastante, após a conquista o povo se mostrava contrário ao regime. Foi então que ele fundamentou sua hegemonia cultural, que prega a conversão de corações e mentes à ideologia, preferencialmente antes do poder partidário, para que as pessoas acabassem por desejar o regime. Para isso, é fundamental destruir a cultura tradicional:

"A postura revolucionária exige permanente embate contra as filosofias tradicionais, implícitas, de forma desorganizada e fragmentada no senso comum, mas a elaboração das novas idéias hegemônicas não pode prescindir de tudo aquilo que é próprio do senso comum, pois este traduz “espontaneamente a filosofia das multidões”. É preciso garantir o vínculo permanente da filosofia da práxis com as aspirações populares, de forma a que as novas ideias se enraízem na consciência do povo com a mesma força das crenças tradicionais."

Por cultura tradicional entenda-se todos os valores historicamente construídos, pois eles seriam fruto dos valores da classe hegemônica e, portanto, indesejáveis. Eu ou tu, uma vez que não somos da classe dominante, não temos ideias próprias. Nossas ideias são fruto da lógica que sustenta o poder dos burgueses. É verdade? De fato, até é. Talvez sempre seja. É ruim? Não; ao menos, não é intrinsecamente ruim. A igualdade entre as pessoas é uma invenção teórica. Nunca fomos iguais, em lugar algum, em tempo algum. Nem irmãos gêmeos são iguais, criados pelas mesmas pessoas, com os mesmos valores, com as mesmas condições financeiras. Me parece que a busca pela igualdade é mais um esforço para que não exista o diferente. Autoritários não suportam aquilo que é diferente. Frustrados também não.

Voltando ao ponto: Gramsci defendia ainda uma mudança fundamental, sem a qual o poder dos corações e mentes não teria maior utilidade. É preciso reduzir permanentemente a estrutura institucional. Instituições e leis (criadas para manter o domínio vigente, blablabla) devem ceder espaço a uma participação popular progressivamente maior. O povo, que a essa altura já pensa de maneira homogênea, é quem deve decidir. Por isso partidos de esquerda defendem tanto os "conselhos populares" e minam continuamente as instituições existentes.
A hegemonia cultural é conseguida através de longa e ampla disseminação dos valores marxistas, das mais variadas formas. Basicamente, eles buscam desconstruir tudo, em todas as frentes possíveis. Aí surge a figura do intelectual-orgânico:

"Para a construção desta concepção de mundo crítica, coerente e unitária, assume papel decisivo a ação dos intelectuais de novo tipo, conforme propõe Gramsci. Ao contrário do intelectual tradicional, um profissional da eloqüência e do discurso, a exercer o monopólio do saber na sociedade, o novo intelectual, o intelectual orgânico, deve portar-se como um organizador da vontade coletiva, um construtor da nova hegemonia, um “persuasor permanente”, que necessita garantir sua inserção ativa e contínua na vida prática. Comprometido em elaborar e difundir a visão de mundo a ser universalizada, ou seja, a ser abraçada como verdade pelos agentes sociais, sua função é essencial no estabelecimento do consenso “espontâneo” a ser dado pelos indivíduos e grupos à orientação da facção hegemônica para a vida social, procedimento necessário para a conquista e a posterior conservação do poder revolucionário."

E aí chegamos ao motivo deste post. Tenho visto claramente, há bastante tempo, que uma quantidade enorme de intelectuais-orgânicos, no sentido gramsciano mesmo, tomou conta dos meios de comunicação. Nossos formadores de opinião. Para mim, não há no RS maior e mais covarde que o sr. Juremir Machado da Silva, colunista do Correio do Povo. Hoje o vivente escreveu o seguinte:

"Ninguém tem direito de não gostar de negros. Ninguém tem o direito de impedir a entrada de negros em qualquer lugar. Até pouco tempo, no entanto, isso acontecia em muitos lugares, inclusive em clubes tradicionais e tradicionalistas de nossas cidades. Eu vi. Eu estive lá. Eu acompanhei. Passei a infância e a adolescência vendo isso acontecer. Se o juiz de uma cidade pede emprestado um local para organizar um casamento coletivo e é atendido, o dono do local não tem o direito de estabelecer restrições que contrariem a lei ou se baseiem em preconceitos raciais, religiosos, sexuais, etc. O dono do salão não pode dizer ao juiz: “Empresto o salão desde que não tenha casamento de negro”. Alguém defenderia o contrário atualmente em nome de uma tradição? Não. Ninguém tem o direito de não gostar de negros. Ninguém tem o direito de não gostar de homossexuais. Eu posso organizar um clube que só aceite comedores de sorvete de morango. Isso não é socialmente sentido como discriminatório. Mas legalmente não se sustentaria por muito tempo."

Em primeiro lugar, é de uma arrogância imensa. Ele, ser superior, define o que pode e o que não pode ser feito. Não posso gostar de negros? Claro que posso! Posso não gostar de negros, de homossexuais, de gordos, de petistas. Posso até não gostar de ninguém que não seja eu. Gosto do que eu quiser. Não posso desrespeitar, não posso ofender, não posso prejudicar por conta das minhas preferências. São coisas absolutamente distintas. Não bastasse isso, ele ainda usa de uma covardia intelectual monstruosa, ao associar o acontecido no CTG ao racismo. Acaso tinha algum negro na estória? Não. Por que então ele usou isso como argumento? Porque a maioria esmagadora é contra o racismo. Ao associar racismo com a contrariedade ao casamento gay no CTG ele acaba por induzir as pessoas a serem também a favor do tal casamento. E assim vão, aos poucos, formando a hegemonia cultural.

No fundo, o que essa gente quer é a promessa dourada do socialismo: poder para todos. Gramsci disse, sobre sua escola unitária: "“A tendência democrática de escola não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar governante”. É o sonho dos frustrados, a promessa de serem eles também governantes. De serem os poderosos. Vemos hoje isso em toda a sociedade, onde crianças se sentem tão poderosas quanto seus pais. Não sabem limpar a bunda, nunca produziram nada para seu próprio sustento, mas enchem a boca pra dizer "eu tenho direito!" Vemos quando um vadio qualquer, que preferiu jogar bola a ir pro colégio, que prefere ficar no boteco a trabalhar todo dia, que gasta em festa em vez de investir na educação -enquanto nós e muitos outros com origem muito mais humilde estávamos trabalhando e estudando, dando duro e criando nosso próprio progresso- encher a boca e dizer: "eu quero meus direitos!" Não somos todos iguais? Não é isso que pregam as esquerdas? Se somos todos iguais, direitos iguais. O problema é que a riqueza e os meios para garantir todo e qualquer direito não crescem em árvores, não têm geração espontânea. Precisam ser criados por alguém. Mas isso eles não dizem. Não ajudaria a alcançar o objetivo deles.

"Tá, mas então, no fim das contas, tu tá querendo dizer que acredita que tem uma revolução comunista em andamento?" Sim e não. Sim, porque os métodos usados são os mesmos, pelas mesmas pessoas. E eles não estão mais criando isso, já foi criado, está sendo finalizado. Não, porque ninguém mais quer ser governante de um país comunista. Já viram que não dá certo. O que eles querem é o poder, como sempre.

Queria encerrar lembrando que as citações são do próprio Gramsci ou do PCB (http://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=8:antonio-gramsci-e-a-construcao-da-nova-hegemonia&catid=2:artigos). Para quem acha que PCB e PT são coisas totalmente distintas, deixe de preguiça é vá estudar um pouco.

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