terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Coimbra, novamente

Pode parecer mera preguiça, e um pouco é. Mas que posso fazer se as duas colunas foram excelentes? Com a cara e a coragem, o David tem virado uma voz que vai contra a manada do politicamente correto e aponta o óbvio. Ainda tem brasileiros que são homens de verdade, felizmente.

Homens de verdade

Os valores masculinos estão em extinção. Disso eu já sabia. E, antes que os vigilantes ideológicos saltem feito salmões de suas redes sociais, corro a ressaltar: valores masculinos não têm nada a ver com homofobia ou machismo. Um homem de verdade pode ser homossexual. Um homem de verdade defende as mulheres quando outros, homens ou mulheres, tentam diminuí-las.
Feita essa ressalva em homenagem aos chatolas da nação, prossigo: os valores masculinos estão em extinção. Ser homem, um dia, significou ser leal, inclusive aos seus inimigos. Significou enfrentar as contingências da vida sem se lamuriar. Significou ter respeito pela privacidade e pela liberdade dos outros, mesmo que você não fizesse o que os outros faziam com a sua privacidade e a sua liberdade.
O homem resistia de espinha ereta. O homem não era sórdido, traiçoeiro, fofoqueiro, manhoso. Ser homem era adjetivo. “Seja homem!”, alguém dizia, e você sabia que tinha de se recompor, você sabia que estava à beira do fiasco.
Isso começou quando esses caras passaram a usar brinco. Sim, eu sei que lutadores de MMA usam brinco. Mas quem diz que um sujeito, por ser mais forte do que os outros, é homem de verdade? O Stephen Hawking não dá em ninguém, e lá está um homem de verdade.
Mas, como dizia, os caras passaram a usar brinco. Lembro quando o Celso Roth mandou um jogador dele tirar o brinco. Ninguém entendeu. Diziam que o comportamento do Roth era anacrônico, ultrapassado. Nada disso. Celso Roth estava tentando fazer um time com homens de verdade. Grande Celso Roth. Sabe das coisas.
Em 1977, o Grêmio montou um time com homens de verdade. O símbolo desse time era o zagueiro Oberdan, que um dia declarou:
— Quando esse time for campeão, ninguém vai chorar.
Aquele time foi campeão. E ninguém chorou.
Aquele time foi campeão contra outro time de homens de verdade. O Inter dos anos 70 era feito por jogadores que andavam com o queixo erguido. Não por acaso, o símbolo daquele Inter era outro zagueiro: Dom Elias Figueroa.
Lembrar de Figueroa faz pensar como o futebol se efeminou de lá para cá. Figueroa quebrava narizes de centroavantes a cotoveladas, Tarciso e Palhinha que o digam. Era errado, todo mundo achava errado, todo mundo continua achando errado e, não, florzinhas, não: não é por isso que Figueroa era um homem de verdade. A violência não faz de ninguém homem de verdade, ao contrário. No caso de Figueroa, o que ele fazia era intimidar o adversário.
Todo mundo sabia disso, inclusive o adversário. Ao tentar a intimidação, Figueroa corria riscos, e os assumia. Podia ser expulso, o que seria ruim. Ou podia encontrar um adversário que não se intimidasse, o que seria pior. Joãozinho, por exemplo, não se intimidava: enfiava a bola goela abaixo do Figueroa de tanto driblá-lo e, assim, o Cruzeiro venceu a maioria dos inesquecíveis duelos dos anos 70 contra o Inter.
Joãozinho era homem de verdade. Os melhores atacantes sabiam ser homens de verdade: Romário nunca reclamou de zagueiro; enfrentou-os. Pelé, se tentassem se meter com ele, teriam troco em gols.
Hoje, mesmo os zagueiros são manhosos. Felipão está tentando ensinar a seus zagueiros como se comportar dentro da grande área: sem queixas, sem hesitações, sem tergiversar, sem brincos na orelha. Como homens de verdade.
Desses que não existem mais.

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