quarta-feira, 25 de novembro de 2015

PJ 23; ou, Sobre a arte de encantar-se.

Sim, passou-se bastante tempo. Mas ainda sigo com vontade de falar sobre o show do Pearl Jam. 

É engraçado como a arte toca a gente. Sentimentos e estados de espírito saídos sabe-se lá de onde vêm à tona com a arte certa. Pearl Jam sempre fez isso comigo. Lá se vão mais de 20 anos quando eu, adolescente, comecei a ouvir a banda. Acho que minha geração foi privilegiada, pois começamos a ouvir música justamente na explosão do grunge, com muita gente agitando o rock e o mundo todo. Escolhi bem e desde o início minha banda escolhida foi o Pearl Jam. Não à toa, foi a única que seguiu viva daquele mainstream de Seattle. Crescemos juntos, eu e a banda. Numa época em que muita coisa marcante ocorre com a gente (ou talvez tudo marque os adolescentes), dentre outras tantas, PJ era um remédio incrível.

Mas estamos falando dos 90, época em que ouvíamos música na rádio  esperando tocar 'aquela' música, que gravaríamos numa fita K7 para poder ouvir quando quiséssemos (pois não tínhamos condições de comprar discos e o jabá, talvez, era menos forte).  A MTV Brasil também nasceu junto com tudo isso, facilitando muito nosso acesso à musica internacional. Sim, naquela época a MTV era uma emissora de música. Eventualmente, surgiram lojas roqueiras (como a saudosa Megaforce e suas figuras inesquecíveis, como o Zé) onde a gente poderia comprar as K7 com os discos que escolhêssemos, em poderosas fitas Sony SR Metal ou Sony UX Chrome(as melhores). CD era coisa de quem tinha grana, e mesmo pra esses era difícil conseguir comprar os discos por aqui. 

Toda esta introdução pra dizer que sim, PJ bate forte na minha pessoa e que vivíamos numa época onde o encantamento com as coisas ainda era normal. Não tínhamos qualquer música, de qualquer artista, a qualquer momento, em qualquer lugar. Na minha casa não pegava o sinal da MTV, então nos finais de semana passava o dia todo vendo o canal na casa dos meus avós.. Muitas vezes fui dormir tarde, com o rádio baixinho (walkman, o ipod da nossa época) esperando 'aquela música'. A gente juntava dinheiro pra poder comprar uma fita gravada com uma dúzia de músicas, e não seria no mês seguinte a próxima compra (só quando comecei a trabalhar). Vinil era muito bacana, tinha uma relação de toque com os LPs, mas era caro e não tinha tanta coisa assim. Ninguém ouvia pedaços de música, porque não se tinha esse tique nervoso de não conseguir focar em nada, e também porque muitas vezes demoraria mais acertar determinado ponto que esperar ouvindo normalmente.

Assim sendo, (e agradeço por não ter perdido essa capacidade de encantamento com as coisas; me parece que uma grande desgraça das gerações mais novas é justamente a incapacidade de encantar-se) ir a um show do Pearl Jam era algo totalmente fora da minha realidade. Na época, eu pensava que eles nunca viriam pra cá ou que, se eu um dia pudesse ir ao exterior, a banda já teria acabado. Então, quando a banda anunciou que estaria em Porto Alegre em 2005, quase 20 anos de emoções estavam esperando por eles. Sei que a maioria dos fãs daqui também jamais sonhou que poderia vê-los em Porto. E fomos, eu e o único cara que conheço que gosta da banda tanto quanto eu, ao Gigantinho. Inesquecível, por óbvio. O Eddie prometendo voltar era tudo que a gente queria ter ouvido, e ouvimos. Em 2011, o Zequinha recebeu um show melhor ainda que o primeiro, em um local mais adequado pra popularidade deles. Agora, há duas semanas, foi a ver da Arena do Grêmio receber os caras. 

O show foi monstruoso, com quase 3h de duração. Fui com a patroa e o piá, que infelizmente não teve a mesma capacidade de encantar-se como eu tive, 10 anos atrás. Confesso que a escolha de ter ido na arquibancada, muito, muito longe do palco, talvez tenha contribuído pra isso. Firmei convicção de que shows assim exigem pista. Ou vai e aguenta o tranco, ou fica em casa vendo dvd. De tão longe, o show fica meio brocha. A tal 'pista premium' que inventaram em Porto Alegre é uma excrecência, mas num local tão grande o que se viu foram 'vários' shows conforme a localização do povo. De maneira ainda mais pronunciada que nas vindas anteriores, havia um pública que conhecia meia dúzia de músicas que devem tocar na Atlântida e só vibrou quando estas foram tocadas.  Não sei se não foram usados nas outras vezes ou se eu, por estar mais perto, não reparei. Mas pra mim não precisava ter tanta luz e tanto efeito. Se estão a uma galáxia de gente com o U2, ainda assim acho que eles só precisam do som. A perfumaria eu dispenso. É impressionante a energia dos caras, mantendo o pique por tanto tempo. Vários episódios já relatados pela imprensa, tanto no show de Poa quanto nos demais (especialmente em BH), me interessam pouco. 

Queria mesmo era registrar que escolhi muito bem lá atrás, há 23 anos; que os caras ainda viram algumas chavezinhas muito boas aqui dentro. E que não conheço nada melhor que ter um sonho realizado. Devolvam a essas crianças o direito de sonhar, pois elas já não sonham com nada porque acham que podem tudo.

Não tem nada igual a um sonho realizado, mesmo que pela terceira vez!




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